Todos os motivos pelos quais as pessoas ficam – quinto dia
February 6, 2010
Quinto dia. Talvez eu já não permaneça tanto. Do pé até o joelho. Talvez eu já possa pular dias. A velocidade com que meu corpo vai embora aos poucos é assustadora. Um lugar seguro. As lembranças dos momentos ruins são um lugar seguro. Porque é pra lá que eu vou quando eu sinto a sua falta. E me faz mais calma. É como se eu estivesse inflamada, eu acho. Só dói quando eu me mexo. Quando eu mexo. Quando eu fico mexendo em você dentro de mim. Quando eu penso se você está bem. Quando eu penso se vai ficar tudo bem. Quando eu penso que a gente ainda se ama. E só não deu certo. Só não vai dar certo. Já parei de me culpar por ser idiota. Em vez de pensar nessas coisas agora, eu poderia pensar “por que eu não fui idiota?”. Eu quis ser idiota. E, pelo menos, eu fui. Pelo menos disso eu não vou me arrepender. Eu quis dar uma segunda, terceira chance. Provar para o mundo que o amor podia ser maior que tudo. Tudo. Você acabou provando pra mim que ele não é. Eu me sinto como se não pudesse mais alcançar o céu. Nem sonhando com balão. Nem olhando o pôr-do-sol. Eu nem sinto mais que o céu é infinito. Agora ele parece acabar abruptamente ali. No horizonte. Como se ele não estivesse nem aí em envolver a terra toda. Como se ele já estivesse cansado de responder perguntas. Aliás, tenho evitado olhar para o céu. Tenho medo que alguma combinação de cores inesperada me faça querer ligar pra você dizendo “olha o céu, meu amor! Que lindo que tá!”. Tenho evitado qualquer instância que seja minimamente transcendente. Porque transcender é como amar infinitamente. E só me faz lembrar você nesse momento. As pessoas dizem que vai passar. Eu confio nelas. Eu confio nos filmes, nos livros. Quer dizer, acho que não confio no Primo Basílio. Mas eu confio no Proust. Acho que nunca houve nada tão angustiante quanto o amor de Swann por Odette e mesmo isso, um dia, ficou tênue. Ficou cansado. Desgastou até ele não querer vê-la nunca mais. Até a imagem dela parecer um borrão. Enfim. Acho que eu tenho coisas pra fazer. Vou ter que ir embora. E um dia eu vou mesmo.
Todos os motivos pelos quais as pessoas ficam – terceiro dia
February 4, 2010
Esse é o terceiro dia em que eu permaneço aqui e a vida já vai entrando um pouco em foco de novo. Uma folha de árvore, um pedaço de tronco. Quase enxergo suas ranhuras. Tudo o que não é natureza, no entanto, permanece não nítido. Às vezes uma gota d’água. E o esforço que eu faço para me distrair ou para ajustar o foco da minha Iris é tão desgastante quanto o esforço que eu fazia pra gente ficar bem. Eu nunca tinha reparado que meu braço pesava tanto. Eu suei um bocado pra manter meu braços abertos para o lado, mantendo a linha dos ombros. E esperei, às vezes na ponta do pé, às vezes não. Balé é uma coisa difícil. Às vezes minha mente se sobrepunha e eu deixava meus braços caírem, como se eu não suportasse mais esperar. Eu logo me recompunha e afastava a minha mente. Percebi que meu corpo agüenta muito mais do que minha mente imaginava. Talvez tenha sido tarde pra descobrir isso. Mas talvez esteja cedo para a minha percepção dos fatos. Me sinto bem por conseguir perceber mais rápido, me sinto calma. Acho que as chuvas têm ajudado a não chorar. Reparei que eu não preciso sentir falta dos momentos bons que nós tivemos. Eles existiram e eles serão sempre bons. Vão ficar na minha lembrança. Talvez eu comece a deixar de permanecer aqui. Só um pouco. Talvez um dos meus pés já tenha ido embora, uma das mãos até o cotovelo. Eu não sei. Só sei que me sinto melhor. Não que já tenha deixado de sentir a sua falta, isso não. Mas acho que a consciência de que eu não queria e de que isso é só algo que está fora de meu controle racional me deixa mais calma. O que eu sinto por você é só algo muito forte, mais forte do que eu, fora do meu controle. Eu só preciso deixar sob controle. Eu tenho planos de descobrir como fazer isso. Mesmo que o esforço me faça sentir dor. A minha tristeza nesse terceiro dia é uma tristeza de não ter nada nítido, nada que não seja a natureza, nada que não represente o meu amor. É uma tristeza de frustração comigo mesma. Tudo o que eu errei. Eu não acho que só você tenha tornado as coisas mais difíceis. Eu sempre soube que eu era difícil. Cada dia em que eu ficava mais fácil, você se aprofundava mais em qualquer que fosse a sua dificuldade. Acho que você nem percebia o quanto eu tinha melhorado. Qualquer deslize era intolerável. Qualquer carência, qualquer controle remoto. Acho que a gente tava ficando doente. Você ficando doente. Eu não sei até agora como eu deixei tudo isso acontecer. Como eu deixei chegar tão longe. Me sinto estranha, meio boba. Acho que há dois anos que não sou eu mesma.
Todos os motivos pelos quais as pessoas ficam – segundo dia
February 3, 2010
Esse é o segundo dia em que eu permaneço aqui. Uma tristeza morna. Quieta. Precisei correr na chuva pra lembrar que eu ainda podia ter fôlego para alguma coisa. Mas eu perdi o fôlego, decidi que só andar seria bom. Fui sentindo a água envolver meu corpo e era fria. Fiquei lembrando dos momentos bons. De ficar abraçada, ouvindo música. De receber carinho no cabelo. Eu sentia os pingos d’água pesados caírem no topo da minha cabeça e escorrerem até a ponta do meu cabelo. Como o seu carinho. Fiquei pensando se outra pessoa faria carinho no meu cabelo da mesma maneira. Fiquei um tempo na chuva, respirando ofegante. Lembrei das gravuras que acabava de ver no MASP, tão coloridas. Tão bem coloridas. Pensei que eu devia ter colorido melhor o desenho que eu fiz pra você. Me arrependi. Não tinha pensado que podia ser o último. Queria fazer outro. Queria fazer um melhor. Queria que você pudesse olhar para um desenho bom para lembrar de mim. Ao chegar em casa ainda me demorei a entrar no banho quente. Queria sentir frio. Um frio confortável que equilibrava a minha tristeza morna. Fiquei olhando o porta-retratos. Pensei que não era possível aquilo ficar ali. Tão lindo. Tão feliz e tão distante. Me concentrei para lembrar o porquê de tudo aquilo. Tive que me conformar. Você me obrigou a pensar que isso valia a pena. Tudo o que me magoou por tantas vezes me obrigou a perceber que valia a pena. Pensei que eu tinha sido muito idiota mesmo, assim como você disse que eu era. Percebi toda a culpa que eu tinha em deixar você fazer o que queria. Dizer o que queria. Você, que sempre se sentia tão cerceado. Acho que, no fim, você era livre demais. Me senti melhor, mesmo que culpada. Me senti arrogante por ter te perdoado tanto, como se eu fosse um ser superior que estivesse acima das suas atitudes e tivesse que te ajudar. Os seus problemas estão tão além de mim e tão longe do seu próprio alcance. Não havia o que ser feito. Eu espero que um dia haja. Eu queria te guardar em uma caixinha, protegido do mundo e de tudo o que aconteceu no passado. Eu mal consigo ME proteger. Me sinto arrogante de novo. Me sinto ainda um pouco idiota. Sinto meu peito ainda repuxar um pouco, mantendo um fio tencionado. Um nó na garganta como se fosse uma onda presa. Me sinto mais calma. Como se pela primeira vez o barco pudesse ficar parado, e a água parada, como numa enchente, não mais como num mar infinito. E o barco parado não faz mais forçar tanto o meu peito. Deve ser por isso que tem chovido tanto. Eu sinto tanto a sua falta, mas eu não queria. Eu não queria. Eu juro que não queria.
Todos os motivos pelos quais as pessoas ficam
February 2, 2010
Esse é o primeiro dia em que eu permaneço aqui. Eu posso dizer que a sensação de permanecer encontra-se contraditória nesse primeiro dia. Ao mesmo tempo em que é clara a vontade de permanecer, eu me pergunto por quê. Por que eu insisto em permanecer? Essa pergunta pinga na minha cabeça, talvez porque eu prefira pensar, dessa vez, nos motivos pelos quais as pessoas ficam, uma vez que eu já me sinto cansada de questionar o motivo pelos quais elas vão embora. Elas vão, isso é um fato. E eu acho que o problema nem é mais esse, o problema deve ser quem fica. Penso, na verdade, que é uma questão de quem consegue ser sensato primeiro. E isso me entristece. É o primeiro dia em que tudo o que eu aprendi com os Beatles caiu por terra. O amor não vai salvar o mundo. O amor é muito frágil para isso. Não o meu amor, eu acho. Porque, se fosse, eu não permaneceria aqui agora. Eu teria sido a primeira a ser sensata se meu amor fosse frágil. Eu não teria que ter assistido o céu derramar todas as minhas lágrimas ontem, inundando a cidade e fazendo tantas pessoas terem que chorar por motivos muito mais dignos do que o meu. Me sinto mal por ter gostado de ver o céu desabando em água. Me poupou um esforço enorme de chorar por você, não porque eu não tivesse vontade, mas porque minhas lágrimas por você são espessas e amargas. A chuva de ontem foi um desabafo. Um desabafo do mundo, talvez, que percebeu que o amor não vai salvá-lo. Por um lado eu fico feliz de ter essa capacidade de amar tão puramente e tão infinitamente, eu me sinto vivendo. E, pelo menos, eu posso dizer que dessa vez parece muito mais fácil. Eu já me acostumei com a sua ausência. No fundo, eu sinto falta da sua ausência. É que eu ainda não me sinto livre. É como se o meu corpo fosse um porto e houvesse um navio preso a ele, que tenta ir embora. Mas está preso, e eu sinto repuxar no meu peito, uma coisa que me leva para frente, na sua direção. Eu tentei te explicar isso ontem, mas você bufou, porque eu tava demorando muito pra ir embora. É como se fosse um imã e você é minha polaridade inversa. Inversa mesmo, pois até agora eu não sei o que você tem a ver comigo. Eu tava demorando muito pra ir embora, porque na verdade eu não fui embora. Eu tive que permanecer aqui, eu não consigo ir. Eu te disse. Ainda sinto as suas mãos no meu ombro, e os seus olhos tentando encontrar os meus pra você ver se eu entendia que você tava dizendo tchau, pela milésima vez. Eu queria evitar te olhar nos olhos, porque eu não queria entender aquele tchau. Eu me recuso a entender até agora, foi tão brusco, tão violento. Tão violento. Tão pra sempre. Racionalmente, como eu quase nunca consigo ser, eu sei que esse pra sempre, agora, faz sentido. E que quando eu sentir isso de verdade, eu só vou ter que te agradecer, por você ter sido sensato antes de mim. Porque eu sei que eu nunca seria. O amor é mais forte que eu. E por isso, eu permaneço aqui.
Hipermetropia
December 2, 2009
Reações prevista. Planos B. Acões re-vistas. Receber a menos. Pedir perdão. Pagar a menos. Pegar leve. Leve. Levar a culpa.
Desculpa.
Eu não queria que fosse assim. Ser assim. Eu não sei ser você. Eu não sei ser. Mais.
Eu sou você, mas você não me conhece. Não lembra de mim. Se perdeu.
Pensamentos confusos. Sensações contraditórias. Sensações pensadas.
Estava pensando que esqueci como sentir. Como sentia. Só me lembro o que sentir. E quanto.
Mas não como.
Não precisava sentir o quanto eu sentia. Só como eu sentia. Só como. Só.
Eu sou você, lembra? Mas você não sente como eu. Você sente sentindo. E não consente.
Você não me conhece, porque eu sou você.
O gosto das coisas. Do gelo. Do abraço. A textura. Do ombro.
Tão de perto tão de perto que eu não via. Tão fria.
O espaço entre tudo. Entre os nossos narizes. O gosto gosto que tinha.
Reações exageradas. Ações pequenas. Planos D que falham. Lugares confortáveis.
Pagar a mais e a mais e a mais e pagar e pagar. Tão de perto que eu não via.
Vai lá e lembra de você. Vai ver de longe. Tão longe tão longe até poder ver tudo. Lembra de mim.
Porque eu sou você. E você se perdeu. Em mim. Longe longe.
Medo pós-moderno
É muito triste quando alguém de-sa-pa-re-ce da sua vida. Bruscamente. Como se tivesse morrido em um acidente de carro depois de uma noite agradável ou mergulhado atrás de seu barco de férias enquanto ele dá ré, sendo atingido pela hélice. O problema é quando a pessoa morre, mas você sabe que ela não morreu. Tipo o Elvis. Ou, simplesmente, alguém que decidiu que ia desaparecer da sua vida, uma escolha, dessas escolhas simples e doloridas. O que será que sente alguém que resolve de-sa-pa-re-cer? Alívio? Tristeza? Saudade? Vazio? Porque é como se a pessoa tivesse se apagado. E, de qualquer forma, mesmo com a vontade de ir, não deve ser bom se sentir apagado. A pessoa que fica, geralmente, tanta reforçar a atitude da pessoa de fingir que ela morreu. Assim como todos nós fingimos que o Elvis morreu. Porque é mais fácil. Mais conformado. Dessa maneira, não temos que lembrar que a pessoa poderia estar aqui, tocando, dançando, cantando. Bom, eu acho que não importa o que a pessoa que desaparece sente depois de ir, porque ela desapareceu mesmo, afinal. Acho que o que importa mesmo é o que ela sentiu antes de ir, ou o porquê ela desapareceu. Eu penso que a culpa é toda do Iluminismo, com aquela ideia mecanicista de que nós venceríamos tudo pela razão. Porque, desde os homens das cavernas, a gente criava mitos de segurança, como “da onde veio o amor” ou “como surgiu a raiva”. Isso era seguro, porque projetava o homem no não-tempo, ou seja, era um modo de lidar com a fragilidade de que um dia o tempo de todos os homens iria acabar. E o iluminismo acabou com isso, porque era subjetivo demais e só poderíamos ter progresso e segurança, positivistamente, pela razão. Era como libertar-se da insegurança da emoção. Pensando bem, agora, acho que isso não é ruim. Se nós tivessemos continuado iluministas até hoje, acho que estaria tudo bem. Seríamos sujeitos seguros e centrados. Talvez, então, o problema tenha começado quando descobriram que as coisas poderiam ser imprevisíveis e a ciência não poderia explicar tudo. Isso leva à teoria das catástrofes. Por exemplo, analisando a variável da agressividade, um cachorro pode ser agressivo quando ele está com raiva, mas, quando ele está com medo, ele pode tanto ser agressivo, quanto fugir e de-sa-pa-re-cer. Isso gera uma certa instabilidade do mundo, que, em adição à teoria da relatividade, gera uma certa incerteza no universo, que só pode gerar, por conseguinte, uma incerteza nas relações sociais e pessoais, que, por sua vez, gera um descentramento do sujeito e isso dá medo. Pronto, tá vendo!? Não é culpa de ninguém! É tudo culpa do Universo, que é incerto. Porque se o sujeito está desconstruído, fragmentado, e o que importa no capitalismo é a performance das coisas, nós não perguntamos mais “isto é verdade?”, mas sim “quanto isso vale?” ou “pra que isso?”. Acho que é isso o que gera, na pessoa em de-sa-pa-re-ci-men-to, um sentimento de “estou fazendo as coisas por obrigação, logo, isso não é de verdade”. Mas se a performance é importante e, sendo assim, você é uma máquina, o que é que nós fazemos que não é por obrigação, meu deus do céu!?!?! A gente faz tudo por obrigação, porque o sujeito só se forma no discurso! É óbvio! É isso! E se nós somos todos simulacros sempre, nós somos sujeitos incompletos, porque somos um signo sem referente, não há nada no real que nos justifique. A representação da representação! A gente sente que faz as coisas por obrigação, porque a gente não consegue alcançar o sentimento que está por trás, então a gente continua repetindo as ações que dão certo, porque da primeira vez que a gente agiu daquele jeito, talvez a única vez que foi natural, deu certo. E é por isso que o sentimento que está por trás deixa de existir, porque ele vai sendo esquecido, só as ações relacionadas a ele é que ficam, e elas são vazias. Depois de um tempo essas ações começam a dar um certo mal estar, porque a gente é obrigado a perguntar sempre “o quanto isso vale?” ou “pra que isso?”, uma vez que a pergunta “isso é verdade?” não consegue mais ser respondida, ficou muito lá atrás. A performance precisa ser boa. Precisa ser perfeita. O que passa a justificar nossas ações não é mais real, porque é representação de uma representação. Tá tão distante. Essa coisa de ser um sujeito incompleto, que dá medo, ainda faz nós pensarmos que nós não damos conta de tudo. Eu não posso ser filha enquanto eu sou amiga, eu não posso ser namorada enquanto eu sou profissional. Para cada elemento da nossa vida, nós somos uma pessoa diferente. Isso desgasta a nossa persona. Por isso a gente se prende às ações, porque é difícil carregar tantos sentimentos, de tantas esferas da nossa vida. Então, quando eu sou filha, aqui está meu sentimento de filha, mas quando eu preciso ser namorada, eu deixo meu sentimento de filha lá, porque os dois juntos é muita coisa. Imagina tudo junto. Por isso todos esses relacionamentos líquidos, essa vida líquida, em que não se pode viver o presente, porque é impossível e porque o tempo é mais forte do que a experiência real. Eu acho que é por isso que as pessoas de-sa-pa-re-cem, fingem que morreram, é mais fácil sair de uma vez. Porque dá medo. Porque elas não são capazes de lembrar o que motiva suas ações. E a culpa não é delas, é do Universo.
Às vezes eu queria não ter uma cabeça e/ou não ter um coração.
É muito difícil ser um sujeito fragmentado e ter as duas coisas.
Por favor, não morra.
Here there and everywhere
November 17, 2009
É uma sensação física estranha. Como se eu pudesse sentir o céu descendo sobre a minha barriga. Espesso e pesado. Transbordando. E transborda, porque sempre transbordou. Transborda, porque nada que é infinito cabe em lugar nenhum ou em ninguém. E o que é infinito não pode acabar ou ir para longe, porque está em todos os lugares. Não foi uma transformação. Acho que foi só a sensação mesmo que mudou. Aquilo que antes era uma fumacinha rosa, pairando no universo, agora é uma gosma verde limão que transborda de mim e de todas as outras pessoas e dos lugares e das coisas. E é por isso que o céu vem descendo, escorrendo, com todo o seu peso infinito, sobre a minha barriga. Porque não tinha outro jeito. A gosma verde limão é como leite condensado misturado com alguma coisa muito boa, que não é desse planeta, e tem um gosto doce. É tão bom que chega a ser angustiante, porque aquilo emerge de todas as pessoas, de tudo, e vai inundando a terra e a minha vida e o universo, eu me sinto enjoada, como se ao mesmo tempo eu quisesse continuar a me alimentar disso pra sempre e quisesse que a fumacinha rosa voltasse, leve, fazendo com que tudo flutuasse a minha volta. Eu acho que misturaram o amor com água. Deve ser por isso que apagou. Deve ser por isso que se transformou em uma gosma doce e pesada. Verde limão. Verde limão, porque deve estar gritando, sufocado, inflamável. Amável. E é isso que eu sinto na minha barriga. Uma sensação física estranha.
Now they’re frightened of leaving it,
Everyone’s weaving it,
Coming on strong all the time,
All through the day, I me mine.
Primeiridade
August 18, 2009
Quando antes fosse. É que quando se percebe já não se é. E quando não se é, aquilo é (de algum jeito). De algum jeito mais distante.
Eu não era eu, porque eu não era nada. Eram só sensações. Sentia aquilo, vivia aquilo sem saber o que era, ou o porquê, ou o como, ou o onde, ou o por quem. E eu não precisava me perguntar nada disso, porque era aquilo em absoluto. Eu era aquilo. Eu era o amor, o próprio, o absoluto, o infinito, e só. O nada. Transbordando.
Mas, assim que o meu corpo pediu para que alguma daquelas perguntas fossem respondidas, eu percebi. E quando eu percebi, eu já não era mais. Aquilo estava ali, fora de mim, palpável, existente, pedindo uma ação, uma reação, uma consideração. E quando você precisa pegar, pensar, considerar…isso abre fendas. E o que era tão puro, aquilo que durou talvez milésimos de segundos… eu não sei.
E isso não quer dizer que o que resta não é de verdade. O que resta é o eco racional daquilo que era só sensação. O problema são as fendas da racionalidade, é isso. Eu sei que é. Eu quero que seja. Eu quero ser de novo. O primeiro, mais puro, mais original. O acaso. Quanto antes fosse.
É isso o que eu sinto, às vezes. Mas eu não consigo tocar.
Não responda perguntas
Não faça perguntas
Não fale com estranhos
Ascensão e Queda da Ovelha
July 7, 2009
Mariposa morta (grande). Quarto vazio (maior)
September 15, 2008
ATO DE NÃO SE SENTIR BEM
Eu estava com medo de ficar no quarto vazio
e eu achava bonita
a mariposa morta no hall
sempre
que eu ia embora
e uma vez
quando eu voltei.
Mas eu tenho muito medo
da mariposa
viva.
E eu acho que é bonita
a imagem do quarto vazio.
A tristeza bonita das imagens
e o medo de participar delas…
Talvez seja tudo relativo,
menos o ato de não se sentir bem.
Eu quis dizer.
Era bonito.
Sobre amor, quarto vazio, saudade, e mariposa morta.
Mas eu não consegui…
no ato de não se sentir bem
as mesmas imagens bonitas
queriam dizer outras coisas.
Talvez eu não quisesse ouvir…
E, de repente,
recolheram a mariposa morta do hall
com aspirador de pó.
Eu ouvi.
Sobre chegar à superfície. Respirar e tals (ou não)
August 22, 2008
Eu acordei com a sensação de que eu tinha que dizer, mas não sabia como. Eu não sabia se eu desenhava ou escrevia. Era aquela coisa sufocante de ter que chegar à superfície todos os dias, com medo de ficar sem ar. Eu pensei em escrever com lápis aquarela, pra depois poder chorar em cima e formar um desenho. Aí eu teria feito as duas coisas e não precisaria escolher. Mas não era isso, era mais o cansaço físico e mental de ter que chegar todos os dias à superfície. Como um peixe beta que vai respirar de vez em quando, porque o dono estúpido dele não coloca um oxigenador de água no aquário. Eu não sei nada sobre peixes beta. Mas eu já tive um e ele morreu afogado, porque ele ficou preso na planta artificial que era só um enfeite e não conseguiu chegar a superfície para respirar. Eu nem sei bem se foi isso mesmo. Eu nem sei bem se desço ou se subo pra chegar à superfície. É que eu moro bem no meio da coisa toda, sabe? Eu demoro sete minutos para chegar à superfície. Eu vou subindo, subindo, e quando eu tô atrasada isso me cansa muito. São quatro quadras da av. Paulista. São sete minutos. É todo dia. Às vezes eu levo só cinco minutos, e são esses dias que me fazem pensar como essa coisa de chegar na superfície pode ser cansativa. Mas é necessário estar lá. Respirar e tals. Mas outro dia eu desci um pouco e isso me fez pensar. Era um domingo e tinha um evento de gente chique naquela rua chique. Eu nem sei bem o que eu tava fazendo lá, porque eu tinha acabado de chegar de um dia bem cansativo em que eu fiquei em baixo do Sol por muito tempo. E isso é bem um desastre pra mim, que sou quase albina. E quando eu deveria estar descansando da minha insolação, eu estava lá naquela rua cheia de gente chique e com música alta, procurando minha mãe que tinha sumido da minha casa. E eu achei que eu não podia ficar sozinha, mas eu devia. Demorou um pouco pra eu entender o que tava acontecendo, mas um segurança de alguma loja quase me explicou tudo quando ele disse: “mocinha, por favor, não pise no tapete de grama sintética”. E eu olhei pra baixo e tinha um tapete verde que nem era grama sintética, e sim uma borrachinha verde que imitava grama. Olhei para os lados e havia pessoas com calças de lantejoulas tomando chandom. Fotografos. Tive até que desviar pra não sair numa foto com a Giovana Antoneli (não sei como escreve esse nome). Tava todo mundo pisando naquele tapetinho tosco, e eu fiquei sem entender porquê eu não podia. Devia ser meu all star que um dia já foi branco e agora tá desfiando um pouco. A música era extremamente alta, e as pessoas não conversavam, só sorriam umas às outras. Eu lembrei de uma frase que uma pessoa tinha me dito nesse mesmo dia que achava “que essa coisa de conversar era meio subversiva”. A música devia ser alta por isso. Quando eu finalmente encontrei minha mãe e minha tia, eu quase gritei “o que vocês tão fazendo aquiiiiii!?”, mas minha mãe não entendeu o que eu perguntei e respondeu que “não dava pra pegar chandom de graça, porque só pode pegar quem tem essa pulseirinha preta! Mas eu peguei um cata-vento pra você, filha!”. Além de champanhe (também não sei escrever isso, tem algum g no meio, não tem?), a chandom tava distribuindo cata-vento também. Vai saber… e a gente resolveu ir embora e comer em casa mesmo, porque, na verdade, ninguém sabia o que tava fazendo ali, nem a gente. No caminho de volta eu fiquei pensando que ali era muito mais fácil de se viver, e que talvez eu poderia me converter àquilo tudo um dia. Aquilo sim que era superfície. Lá é que podia se respirar um pouco. Ter um tempo sem pensar em nada. Sem ter que conversar. Era a superfície de tudo! Dos meus pensamentos, idéias, vontades. E eu fiquei pensando que todo esse tempo em que eu fiquei me cansando, subindo aqueles sete minutos, achando que eu tava indo à superfície… na verdade, não. Eu tava era me afundando cada vez mais no abismo que é o mundo, quando a gente enxerga não só o que a gente quer. Devia ser por isso que sempre que eu chegava lá em cima eu me encontrava mais sem ar do que lá em baixo. Mais cansada. Era lá em baixo que eu ia fugir de tudo… e por um momento eu pensei que o morro dos jardins estivesse ao contrário. Só que não dá! Não dá pra acreditar que isso possa dar certo. E não dá. Porque, por mais incrível que pareça, ainda parece mais legal subir correndo o morro e chegar lá de 5 à 7 minutos, bem sem ar…pra poder descansar no vão do masp, e ouvir meu amigo que mora lá, no vão do masp, dizer que ele mora “num hotel de um milhão de estrelas”. Aí você olha para o céu e nem tem um milhão de estrelas, mas é legal mesmo assim, e elas estão lá. Eu nem sei mais o que estou dizendo. Eu só prometi pra alguém que eu ia escrever um texto sobre chegar à superfície, como se eu morasse no fundo do mar. E eu me confundi um pouco com os sentidos disso tudo.
No meio do morro.
“É aqui que eu moro………é meio vázio, né………é que eu não tenho muita coisa mesmo…”
[22/08/08 - 11:11 a.m]
Eu li isso e eu… acho que eu fiquei pensando. Eu imaginei a cena, e foi tão legal!!
Quando Olafur Eliasson coloriu o rio de Estocolmo:
“Numa sexta-feita, a uma e meia da tarde, Eliasson subiu numa ponte com uma sacola cheia de pó vermelho. Hesitou por um momento, mas acabou esvaziando o saco pelo parapeito da ponte: ‘o vento fez com que surgisse uma enorme nuvem vermelha. Eu podia ver as pessoas que estavam de carro diminuindo a velocidade para observar a nuvem em cima do rio, como uma mancha de gás. Quando ela entrou em contato com a água, de repente, o rio ficou verde’.”
Ele também já coloriu outros rios… e, atualmente, ele construiu umas cachoeiras no East River em Nova Iorque. Os corantes são não-poluentes, relaxem.
Mais uma homenagem às pessoas que vão embora.
É a primeira vez que hoje não faz sentido.
E, na verdade, não é. Porque é diferente quando você acha que faz sentido, mas não faz. E quando não faz sentido de verdade, você percebe que nunca fez. Eu não tenho escrito muito, porque eu acho que fiquei pensando nisso todos esses dias.
Ela passou vários dias bloqueando um monte de pensamentos, assim como bloqueou um monte de lembranças de muito tempo atrás. E escutou sua mãe descrever aquela cena, que deve ter sido a cena mais triste da sua vida, como se fosse a vida de outra pessoa. Ela não lembrava. Nem vagamente. E ela ficou triste por aquela pessoa da cena triste. Mas aquilo era distante e impessoal. E o efeito que causou nela foi frio. Assim como tinha que ser.
Porque não dava pra sentir falta de algo que ela nunca teve.
Eu pintei um quadro e aquele quadro ficou um quadro.
E era só um quadro.
Não queria que parecesse uma foto.
Eu queria mesmo que fosse só um quadro.
Eu coloquei uma moldura
que era pra aquilo não sair pelas bordas.
Que era pra não virar parede.
Eu tive medo que achassem que era um espelho.
E ficassem parados em frente, olhando.
Eu queria que fosse um quadro quadrado.
Eu queria que fosse pura art Déco.
Daquelas que a pessoa olha uma vez e pensa
“que mau gosto”
e não olha nunca mais.
Eu não quis olhar nunca mais
para o quadro que eu fiz.
Eu pendurei
só porque eu não podia ignorá-lo
ou guardá-lo
porque guardar parecia pior.
Eu queria que ele estivesse ali
não estando.
Eu pintei um quadro borrado
porque-eu-não-queria-que-parecesse-uma-foto
E ficou um quadro.
[Dia dos pais de 2008 - 10:10a.m.]
Musical frenesi on the go!
August 7, 2008
A quick suggestion.
[ Andrew Bird ]
[*] Site
[*] Wiki

Thrills (1998)
Uma nostalgia oldschool que retoma o melhor de New Orleans, gravado com alguns microfones antigos e cheio de boas influências, blues como deve ser.
traclist…
1. Minor Stab
2. Ides of Swing
3. Glass Figurine
4. Pathetique
5. Depression – Pasillo
6. 50 Pieces
7. Woman’s Life and Love
8. Swedish Wedding March
9. Eugene
10. Gris-Gris
11. Cock o’ the Walk
12. Nuthinduan Waltz
13. Some of These Days

The Swimming Hour
Um album quase que completamente diferente do outro a não ser pelo fato das influências serem claramente as mesmas, porém, não tão explicitas. Como em todo bom album, cada faixa tem sua própria personalidade sem perder o estilo continuo.
tracklist…
1. Two Way Action
2. Core and Rind
3. Why?
4. 11:11
5. Case in Point
6. Too Long
7. Way Out West
8. Waiting to Talk
9. Fatal Flower Garden
10. Satisfied
11. Headsoak
12. How Indiscreet
13. Dear Old Greenland
have fun kids.
Céu pálido tempo estático coágulo de ar
August 5, 2008
“Que inverno de merda, hein?”. Tá muito quente. Não tem vento. O ar ficou tanto tempo parado que coagulou. Coágulos de ar. E de repente eu não respirava mais. Assistia ao mundo como se não fizesse parte dele. Eu via as pessoas e esperava pelo vento, esperava que as pessoas trouxessem o vento. Não tinha ar. Tudo coagulou de tanto tempo parado. Coagulou o tempo, que parou. E eu queria PODER amar. Eu fiquei esperando, mas não fazia diferença, porque o tempo estava parado. As pessoas agiam como se o tempo ainda corresse, como se houvesse ar não-coagulado. Comecei a desconfiar das pessoas. Comecei a achar que tudo aquilo fosse arranjado. Tudo arranjado para me desesperar. Alguém veio falar comigo e eu não tive coragem de contar. Eu disse que estava tudo bem. Eu menti. Eu disse que havia vento e nem mencionei a coagulação do ar. Eu falei que o tempo corria e até que o tempo cura tudo. Eu não consegui contar. A pessoa pegou na minha mão, porque ela conseguia ver nos meus olhos, “que mão gelada!”. Tava tão quente. Eu não tive coragem de contar que eu não respirava mais. A pessoa me ofereceu um sorvete, porque ela conseguia ver nos meus olhos. EU não conseguia olhar nos olhos dela, por causa da cor, que me lembrava de alguma coisa que ficou perdida no tempo que parou. “Sorvete? No frio?!”, “não tá frio!”, a pessoa não sabia mais que era inverno. “E você adora sorvete!”, ela sorriu. Eu pensei na distância a qual se encontrava o sorvete, não fazia diferença. “É meio longe…”, disse a pessoa. Pensei no tempo e espaço, e cheguei à conclusão de que, com o tempo parado, não havia distância. Com o tempo parado, tanto faz se eu vou buscar sorvete na esquina ou no Japão. As coisas só ficavam longe, porque se levava tempo para chegar até elas. “Não tem problema, eu tenho tempo…”, menti. Achei que a pessoa fosse começar a perceber que o tempo havia parado, mas não. Imaginei que a pessoa também estaria disfarçando, sem coragem de me contar que já sabia. Desconfiei das pessoas. Comocei a achar que todo mundo sabia e estava disfarçando. Fiquei nervosa, estressada. Se o tempo estivesse correndo, quanto tempo já teria passado? Mandei a pessoa ir embora, porque não sabia mais nada. E ela foi, acredita? Porque é isso o que as pessoas fazem, elas vão embora quando a gente pede. Eu só queria PODER amar, mas não podia. Nem respirava mais, afinal. Lembrei que no avião eles dizem que o melhor é você colocar a sua própria máscara de oxigênio antes de ajudar a pessoa ao seu lado. Não tinha mais tempo também… não fazia diferença. Olhei para cima, pra ver se não tinha caído nenhuma máscara de oxigênio sobre a minha cabeça. Não tinha nada. Reparei que o céu estava meio pálido
Texto escrito no dia UM de agosto (eu não gosto de dizer ’dia primeiro’).
Como num sonho. Como num sono.
August 1, 2008
Tem areia nos meus olhos. Olhos de praia.
Mar salgado. Mar amor. Areia eu. Meus olhos
ardem com a luz laranja do pôr-do-sol de inverno
na praia. Eu não durmo. Eu não durmo. Meus olhos
ardem, vermelhos, com insolação. Eu esfrego, sai
uma água cinza…salgada. Mar maquiagem. Mar
maquilado. Areia do meu lado. Do meu fardo.
Eu não durmo. Acho que é o tempo seco,
que meus olhos ficam colados. Aquele
líquido que lubrifica minha retina
evapora…é o tempo seco. Arde.
Eu não durmo. Não tem mais
lágrimas. É o tempo seco.
Todo o dia de manhã, o
nascer-do-sol não tem
a cor do pôr-do-sol. Eu
vejo o sol nascer, com os
olhos caídos. Eu tenho sono.
Eu tenho sonho. Tem concreto
nos meus olhos. É áspero. Meus
olhos ardem. Eu não durmo… Eu
esfrego tudo, sai uma poeira. Doente.
Eu devo estar doente. Tem concreto nos
meus olhos, mas eu vejo tudo abstrato.
Batman mágico… Céu que escorre nos
prédios. Vinho com leite condensado.
Eu não durmo… Eu não durmo… Eu
acordo como se não tivesse dormido.
Talvez eu nem tenha dormido. Tô
cansada. Talvez eu nem tenha
acordado. Talvez eu fique
dormindo o dia inteiro.
Dormir é não dormir.
Quando é acordar? Eu
nem quero saber. Eu não
durmo. Meus olhos ardem!
Minha testa pesa. Eu tenho
que dirigir. Eu tenho que digerir.
Tá difícil digerir. Dirigir também.
Indigestão. Talvez eu vá até a praia.
Indireção. Eu quero dormir. Eu luto contra
as horas em que eu deveria estar apagada. Eu
acordo cansada. Eu assisto ao céu. É um filme
que eu vejo todos os dias… Quando eu tenho
insônia, jogo areia pro alto. Cai no meu olho.
Eu adoro a praia a noite. Eu não durmo. Mar
salgado. Mar gelado. Chuva na praia. Lava
a areia do mar. Eu sou a areia, o mar vem
…o mar vai. O mar vem de novo. Mar
turvo. Mar amor. Areia em mim. O
mar vai de novo. Mar amargo.
Nos meus olhos. Ardem. Eu não
durmo. Boca seca. Cabeça pesada.
Tem um buraco na areia da minha cabeça.
Passa água.Tem uma concha com o barulho do
mar. Me sinto na praia. É o vácuo. É o tempo
seco. Eu tenho sede. Eu sequei a areia da praia
e ninguém disse nada. Eu não durmo. O mar nunca
mais voltou. Eu não durmo. Eu não durmo. Tinha
sangue na areia da praia e ninguém fez nada.
Eu sequei a areia da praia e ninguém disse
nada. Recolhi toda a areia da praia e
ninguém viu nada. Nada.
Tem areia nos meus
olhos. Eu vou
refazer o mar.
Eu não durmo. Eu
não durmo. Eu não
durmo… Eu não
durmo.Eu não
durmo….
[01/08/2008 - texto escrito na madrugada.... são 08:44 da manhã, vou tentar dormir de novo]
[A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA]
July 31, 2008
UM LIVRO DE LOURENÇO MUTARELLI
Hum… acho que eu nunca falei sobre um livro assim, para indicá-lo. Devo fazer uma sinopse? Acho melhor, né… (eu não sou muito boa nisso)
Mas vamos lá – sinopse: É um cara, o Júnior, e ele resolve largar a mulher e o emprego por motivos muito escrotos que eu não vou contar. hahaha. Na verdade, é meio que pelo mesmo motivo escroto que ele larga as duas coisas. Como ele não tem pra onde ir ele vai morar com o pai, e fica lá dormindo no sofá. E ele vendia auto-peças…então ele tem mania de lembrar dos códigos e nomes de cada peça. É bem legal isso no livro, porque do nada aparecem uns números com um nome de uma peça do lado, e geralmente a peça tem a ver com as imagens do texto, entendem? Não, né…hahaha. Então… ele começa a receber uma caixas anônimas, com várias coisas, mas tudo gira em torno de uma notícia de um escritor da geração beat que assassinou a mulher numa brincadeira de atirar no copo que estava na cabeça dela. E aí ele começa a ficar meio louco, e ele fica tentando achar a mensagem que querem passar pra ele. Ele acha que não querem dizer o que está escrito, que querem dizer algo além, entendem? Putz…sinopse tem que ser pequena, né? Enfim… o fato é que ele começa a ficar louco, muito louco mesmo. E o texto acompanha o nonsense da cabeça dele, que é pra deixar o leitor meio perturbado também. Ah… LEIAM.
[A idéia também é bem legal, porque mostra o Júnior como uma cara bem medíocre, assim... como se não fizesse a menor diferença ele ter largado tudo. Porque antes ele trabalhava pra pagar as contas, e agora ele não trabalhava mais, mas também não tinha mais contas pra pagar. É como se mesmo ele largando tudo, tentando mudar o rumo da sua vida, tudo continuasse a não fazer sentido, sabe?]
Então, o autor. É bom falar do autor também, né…
Esse Lourenço Mutarelli é o cara que escreveu O CHEIRO DO RALO e O NATIMORTO. Vocês devem conhecer, porque foram adaptados para cinema. Ah, pelos menos “o cheiro do ralo” vocês conhecem, pelo amor…
Aliás, podiam adaptar esse livro pra cinema também! Seria muito bom.
Acho que é isso.
Caramba, eu fiquei muito louca depois que eu li esse livro.
Talvez eu tenha lido muito rápido.
Ou talvez eu seja meio louca mesmo.
Ou talvez sejam as horas sem dormir.
Ou pode ser que tenha uma taenia solium enrolada no meu cérebro. hahaha
LEIAM LEIAM LEIAM LEIAM
[31/07/08 - 08:08a.m]
insônia matutina
enjôo enjôo enjôo
“As nuvens sempre sabem pra onde vão”
July 31, 2008
Conversa entre alguém que não consegue concluir raciocínios e alguém que não consegue raciocinar conclusões.
30/07/2008 00:33:01 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
hahahaha, ta beem
um pouco antes do lado de dentro
30/07/2008 00:33:12 Fer. diz:
um pouco antes do lado de fora.
30/07/2008 00:33:26 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
han…
eu tô confusa… não me confunda ainda mais
30/07/2008 00:33:47 Fer. diz:
hahahahaha
não se confunda
uma frase que uma anciã da minha família sempre falava pras minhas tias: “as nuvens sempre sabem pra onde vão”
30/07/2008 00:35:04 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
gostei da frase
queria ser uma nuvem
30/07/2008 00:36:27 Fer. diz:
deve ser gostoso ser nuvem
30/07/2008 00:36:40 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
é….. =(
30/07/2008 00:36:44 Fer. diz:
menos quando os aviões as cortam. ou quando está chegando o temporal.
30/07/2008 00:37:01 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
elas choram..
elas foram embora, nunca mais vi nuvens
30/07/2008 00:37:21 Fer. diz:
elas choram elas mesmas
30/07/2008 00:37:27 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
todo o dia é céu-de-brigadeiro
pois é….eu queria chorar eu mesma, pra não restar mais nada (às vezes)
tipo agora
30/07/2008 00:38:34 Fer. diz:
agora você devia querer ser uma estrela. as estrelas sempre são ótimas imagens.
30/07/2008 00:39:01 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5
não….eu não quero brilhar, nem quero estar lá mesmo não estando
30/07/2008 00:39:12 Fer. diz:
ou o próprio céu. você é mais estrela que nuvem, mas é mais céu que estrela.
porque a nuvem acaba e a estrela também. o céu muda mas está sempre lá, mari
30/07/2008 00:39:34 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
eu quero ser nuvem!!! agora eu só quero ser nuvem
30/07/2008 00:40:22 Fer. diz:
é… elas sempre sabem pra onde vão. =)
30/07/2008 00:40:30 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
é…
(…)
30/07/2008 00:53:53 Fer. diz:
porque você é uma nuvem… e elas só flutuam por aí, se colorem com o passar do dia, deslizam tranquilas à noite… se contrastam com o azul do brigadeiro, com o negro noturno… pra elas não faz diferença se é o azul do dia ou da noite, ou se é um pôr-do-sol, transição. elas se carregam das cores e pairam no ar pra serem admiradas e admirar o mundo. as nuvens são macias porque se colocam no lugar da terra, porque não querem ser aquilo sólido e agressivo ao toque… são aquilo, mesmo que à beira da tempestade são nuvens, são macias, são vivas, são mutáveis, são nuvens! =)
30/07/2008 00:54:40 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
=(
eu vou chorar
[31/07/2008 - 00h33min]
insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia
insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia
insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia
Construi uma barreira de gelo
porque achei que gelo seria uma boa.
Frio, porém transparente.
Dava pra ver, mesmo que um pouco
embaçado, tudo o que tinha do lado de lá,
o que não era eu.
(ou talvez fosse)
Funcionou bem no dia do teste.
Cumpriu sua função de proteger,
apesar de me deixar meio fria…
Mas no outro dia,
o dia mais seco do ano
(talvez de muitos anos),
foi diferente.
Não sei se tava muito quente,
porque até meu rosto ficou um pouco vermelho…
mas é que derreteu no topo.
(quase…
quase deixei escorrer!)
Foi ruim.
Os átomos na água ficam mais dispersos,
bagunçados…
fiquei com medo que evaporasse?
Achei que fosse o tempo seco.
Eu construi uma barreira de gelo,
mas o meu tempo sempre é verão.
Todo o dia eu recomeço
Todo o dia eu recomeço
Todo o dia eu recomeço
(E se eu quisesse terminar rimando
eu diria que é em vão)
[Texto escrito hoje, enquanto eu sentia frio e a sensação boa de estar vulnerável no vão do masp, perto daqueles libertinos-que-tocam-muita-música-boa e em baixo daquele bloco de concreto]
É isso, e são 23h23min. E talvez eu goste da adrenalina de achar que um bloco de concreto pode cair na minha cabeça. A qualquer momento.
—Uma mensagem para meu parceiro: Eu troquei o layout de novo, porque aquele tinha um problema. Não aparecia quem postou o quê. E isso é um problema para um blog de duas pessoas…. (desculpa minha incompetência em não conseguir mudar, hahaha) Faça isso você, que entende dessas coisas. Brigada. É isso. —
Pati comprou apatia (pagando em sonhos)
July 28, 2008
Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Pati foi lá e vendeu todos os sonhos. E como ela ainda não sabia o quanto eles valiam, ela vendeu cada ovelha por 40 reais, o infinito por oito reais, todos os morangos que ela colheu por 100 reais, o céu por cinco reais (porque era inverno e tinham poucas núvens), a caixinha azul (com a chave correspondente) por quatro reais, e toda a coleção de idéias criativas por mais 50 reais. No fim, ela cobrou 287 reais por tudo e o cara que usava o uniforme do mundo pagou com três notas de cem, além de uma dose de apatia que seria o suficiente para ela sobreviver, e disse que ela podia ficar com o troco se ela levasse um chiclete pra ele todos os dias. Ela achou aquilo bem digno, e ia ser aquilo todo o mês pelo resto do tempo que ela não sabia o quanto ia durar.
Pati passou a vestir o uniforme do mundo todos os dias, porque é regra. E, por causa da dose de apatia, ela não sentia falta dos sonhos e nem sentia falta de nada. É assim quando se é apático, você não sente falta nem de sentir falta, e isso é o que te conforta quando você não tem tempo de se emocionar com a vida.
“You try, but life is a game.”
E demorou um tempo até que Pati percebesse o que tinha acontecido com ela. Foi num dia de sol e céu-de-brigadeiro, com um pôr-do-sol laranja que lembrava algo que ela não lembrava, e ela chegou em casa mais cedo, porque passara mal enquanto fazia o que tinha que fazer. É que todo mundo passa mal quando a vida fica estranha. E eu acho que a mudança na rotina foi o motivo pelo qual ela deve ter parado pra pensar. Ela viu seu sapato jogado na sala com a sola virada pra cima e correu pra desvirar (porque diziam que isso dá azar). Foi aí que ela viu que havia uma borboleta maravilhosamente-morta-esmagada na sola de seu sapato. As cores de suas asas se misturavam, formando um desenho bonito e brilhante, e aquilo foi demais para a sua recém-comprada apatia. Ela se comoveu, mesmo tentando se controlar pensando que era só uma borboleta que ela tinha matado. Ela tinha matado! Mas era uma morte linda, colorida e brilhante. E Pati era uma assassina sorridente. Sorrindo, porque ela não tinha escolha.
Pati voltou para falar com o cara que usava o uniforme do mundo, e disse a ele que não queria mais os trezentos reais por mês, e que queria seus sonhos de volta. Ele se recusou a devolver, alegando que ela tinha vendido e “quando você vende, já era!”. Foi então que ela mostrou a borboleta esmagada pra ele, e a ofereceu em troca de todos os sonhos vendidos. O cara do uniforme olhou para aquele monte de cores misturadas e brilhantes e acho que ele meio que se perdeu ali, porque ele aceitou devolver todos os sonhos da Pati por aquela criatura tão naturalmente-morta-colorida. Pati foi embora dali pra nunca mais voltar, deixando a apatia e o uniforme. Ela foi atrás da vida e encontrou um mundo, mas esse mundo era muito grande e ela se perdeu. Pelo menos ela nunca mais vendeu seus sonhos e um dia ela percebeu que, para se achar, ela TINHA que ter se perdido. Já o cara que usava o uniforme do mundo, ele nunca mais soltou a borboleta morta, e nunca mais vestiu aquilo. E um dia, ele mascou vinte chicletes de uma vez, fazendo uma bola tão grande (tão grande), que ele saiu voando pela janela e começou a fazer parte do céu que fazia parte dos sonhos da Pati. Assim, a borboleta morta arranjou um jeito de voltar a voar no céu. Todo dia Pati olhava para o céu, e sempre tinha a sensação de que tava tudo ali, mesmo que ela não encontrasse nada. Sem falar que todo dia tinha pôr-do-sol.
E era assim: o que quiser que tenha, tinha. Tinha arrebol? Tinha. Rouxinol? Tinha. Luar do sertão, palmeira imperial, girassol, tinha. Também tinha temporal, barranco, às vezes lamaçal, o diabo. Depois bananeira, até cachoeira, mutuca, boto, urubu, horizonte, pedra, pau, trigo, joio, cactus, raios, estrela cadente, incandescências. Enfim.
- Ôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôô!!!!!!!!!!!
[hoje é dia vinteoito de julho de doismileoito, e são onze-eoito da noite]
Tchau


