ATO DE NÃO SE SENTIR BEM

Eu estava com medo de ficar no quarto vazio
e eu achava bonita
a mariposa morta no hall
sempre
que eu ia embora
e uma vez
quando eu voltei.

Mas eu tenho muito medo
da mariposa
viva.
E eu acho que é bonita
a imagem do quarto vazio.

A tristeza bonita das imagens
e o medo de participar delas…

Talvez seja tudo relativo,
menos o ato de não se sentir bem.

Eu quis dizer.
Era bonito.
Sobre amor, quarto vazio, saudade, e mariposa morta.
Mas eu não consegui…
no ato de não se sentir bem
as mesmas imagens bonitas
queriam dizer outras coisas.
Talvez eu não quisesse ouvir…

E, de repente,
recolheram a mariposa morta do hall
com aspirador de pó.
Eu ouvi.

Eu acordei com a sensação de que eu tinha que dizer, mas não sabia como. Eu não sabia se eu desenhava ou escrevia. Era aquela coisa sufocante de ter que chegar à superfície todos os dias, com medo de ficar sem ar. Eu pensei em escrever com lápis aquarela, pra depois poder chorar em cima e formar um desenho. Aí eu teria feito as duas coisas e não precisaria escolher. Mas não era isso, era mais o cansaço físico e mental de ter que chegar todos os dias à superfície. Como um peixe beta que vai respirar de vez em quando, porque o dono estúpido dele não coloca um oxigenador de água no aquário. Eu não sei nada sobre peixes beta. Mas eu já tive um e ele morreu afogado, porque ele ficou preso na planta artificial que era só um enfeite e não conseguiu chegar a superfície para respirar. Eu nem sei bem se foi isso mesmo. Eu nem sei bem se desço ou se subo pra chegar à superfície. É que eu moro bem no meio da coisa toda, sabe? Eu demoro sete minutos para chegar à superfície. Eu vou subindo, subindo, e quando eu tô atrasada isso me cansa muito. São quatro quadras da av. Paulista. São sete minutos. É todo dia. Às vezes eu levo só cinco minutos, e são esses dias que me fazem pensar como essa coisa de chegar na superfície pode ser cansativa. Mas é necessário estar lá. Respirar e tals. Mas outro dia eu desci um pouco e isso me fez pensar. Era um domingo e tinha um evento de gente chique naquela rua chique. Eu nem sei bem o que eu tava fazendo lá, porque eu tinha acabado de chegar de um dia bem cansativo em que eu fiquei em baixo do Sol por muito tempo. E isso é bem um desastre pra mim, que sou quase albina. E quando eu deveria estar descansando da minha insolação, eu estava lá naquela rua cheia de gente chique e com música alta, procurando minha mãe que tinha sumido da minha casa. E eu achei que eu não podia ficar sozinha, mas eu devia. Demorou um pouco pra eu entender o que tava acontecendo, mas um segurança de alguma loja quase me explicou tudo quando ele disse: “mocinha, por favor, não pise no tapete de grama sintética”. E eu olhei pra baixo e tinha um tapete verde que nem era grama sintética, e sim uma borrachinha verde que imitava grama. Olhei para os lados e havia pessoas com calças de lantejoulas tomando chandom. Fotografos. Tive até que desviar pra não sair numa foto com a Giovana Antoneli (não sei como escreve esse nome). Tava todo mundo pisando naquele tapetinho tosco, e eu fiquei sem entender porquê eu não podia. Devia ser meu all star que um dia já foi branco e agora tá desfiando um pouco. A música era extremamente alta, e as pessoas não conversavam, só sorriam umas às outras. Eu lembrei de uma frase que uma pessoa tinha me dito nesse mesmo dia que achava “que essa coisa de conversar era meio subversiva”. A música devia ser alta por isso. Quando eu finalmente encontrei minha mãe e minha tia, eu quase gritei “o que vocês tão fazendo aquiiiiii!?”, mas minha mãe não entendeu o que eu perguntei e respondeu que “não dava pra pegar chandom de graça, porque só pode pegar quem tem essa pulseirinha preta! Mas eu peguei um cata-vento pra você, filha!”. Além de champanhe (também não sei escrever isso, tem algum g no meio, não tem?), a chandom tava distribuindo cata-vento também. Vai saber… e a gente resolveu ir embora e comer em casa mesmo, porque, na verdade, ninguém sabia o que tava fazendo ali, nem a gente. No caminho de volta eu fiquei pensando que ali era muito mais fácil de se viver, e que talvez eu poderia me converter àquilo tudo um dia. Aquilo sim que era superfície. Lá é que podia se respirar um pouco. Ter um tempo sem pensar em nada. Sem ter que conversar. Era a superfície de tudo! Dos meus pensamentos, idéias, vontades. E eu fiquei pensando que todo esse tempo em que eu fiquei me cansando, subindo aqueles sete minutos, achando que eu tava indo à superfície… na verdade, não. Eu tava era me afundando cada vez mais no abismo que é o mundo, quando a gente enxerga não só o que a gente quer. Devia ser por isso que sempre que eu chegava lá em cima eu me encontrava mais sem ar do que lá em baixo. Mais cansada. Era lá em baixo que eu ia fugir de tudo… e por um momento eu pensei que o morro dos jardins estivesse ao contrário. Só que não dá! Não dá pra acreditar que isso possa dar certo. E não dá. Porque, por mais incrível que pareça, ainda parece mais legal subir correndo o morro e chegar lá de 5 à 7 minutos, bem sem ar…pra poder descansar no vão do masp, e ouvir meu amigo que mora lá, no vão do masp, dizer que ele mora “num hotel de um milhão de estrelas”. Aí você olha para o céu e nem tem um milhão de estrelas, mas é legal mesmo assim, e elas estão lá. Eu nem sei mais o que estou dizendo. Eu só prometi pra alguém que eu ia escrever um texto sobre chegar à superfície, como se eu morasse no fundo do mar. E eu me confundi um pouco com os sentidos disso tudo.

No meio do morro.
“É aqui que eu moro………é meio vázio, né………é que eu não tenho muita coisa mesmo…”

 

[22/08/08 - 11:11 a.m]

Eu li isso e eu… acho que eu fiquei pensando. Eu imaginei a cena, e foi tão legal!!

Quando Olafur Eliasson coloriu o rio de Estocolmo:

“Numa sexta-feita, a uma e meia da tarde, Eliasson subiu numa ponte com uma sacola cheia de pó vermelho. Hesitou por um momento, mas acabou esvaziando o saco pelo parapeito da ponte: ‘o vento fez com que surgisse uma enorme nuvem vermelha. Eu podia ver as pessoas que estavam de carro diminuindo a velocidade para observar a nuvem em cima do rio, como uma mancha de gás. Quando ela entrou em contato com a água, de repente, o rio ficou verde’.”

Ele também já coloriu outros rios… e, atualmente, ele construiu umas cachoeiras no East River em Nova Iorque. Os corantes são não-poluentes, relaxem.

Mais uma homenagem às pessoas que vão embora.

É a primeira vez que hoje não faz sentido.
E, na verdade, não é. Porque é diferente quando você acha que faz sentido, mas não faz. E quando não faz sentido de verdade, você percebe que nunca fez. Eu não tenho escrito muito, porque eu acho que fiquei pensando nisso todos esses dias.

Ela passou vários dias bloqueando um monte de pensamentos, assim como bloqueou um monte de lembranças de muito tempo atrás. E escutou sua mãe descrever aquela cena, que deve ter sido a cena mais triste da sua vida, como se fosse a vida de outra pessoa. Ela não lembrava. Nem vagamente. E ela ficou triste por aquela pessoa da cena triste. Mas aquilo era distante e impessoal. E o efeito que causou nela foi frio. Assim como tinha que ser.
Porque não dava pra sentir falta de algo que ela nunca teve.

Eu pintei um quadro e aquele quadro ficou um quadro.
E era só um quadro.
Não queria que parecesse uma foto.
Eu queria mesmo que fosse só um quadro.
Eu coloquei uma moldura
que era pra aquilo não sair pelas bordas.
Que era pra não virar parede.
Eu tive medo que achassem que era um espelho.
E ficassem parados em frente, olhando.
Eu queria que fosse um quadro quadrado.
Eu queria que fosse pura art Déco.
Daquelas que a pessoa olha uma vez e pensa
“que mau gosto”
e não olha nunca mais.
Eu não quis olhar nunca mais
para o quadro que eu fiz.
Eu pendurei
só porque eu não podia ignorá-lo
ou guardá-lo
porque guardar parecia pior.
Eu queria que ele estivesse ali
não estando.
Eu pintei um quadro borrado
porque-eu-não-queria-que-parecesse-uma-foto

E ficou um quadro.

 

[Dia dos pais de 2008 - 10:10a.m.]

A quick suggestion.

[ Andrew Bird ]
[*] Site
[*] Wiki

Thrills (1998)

Thrills (1998)

[+] Thrills (1988)

Uma nostalgia oldschool que retoma o melhor de New Orleans, gravado com alguns microfones antigos e cheio de boas influências, blues como deve ser.

traclist…

1. Minor Stab
2. Ides of Swing
3. Glass Figurine
4. Pathetique
5. Depression – Pasillo
6. 50 Pieces
7. Woman’s Life and Love
8. Swedish Wedding March
9. Eugene
10. Gris-Gris
11. Cock o’ the Walk
12. Nuthinduan Waltz
13. Some of These Days

The Swimming Hour

The Swimming Hour

[+] The Swimming Hour (2001)

Um album quase que completamente diferente do outro a não ser pelo fato das influências serem claramente as mesmas, porém, não tão explicitas. Como em todo bom album, cada faixa tem sua própria personalidade sem perder o estilo continuo.

tracklist…

1. Two Way Action
2. Core and Rind
3. Why?
4. 11:11
5. Case in Point
6. Too Long
7. Way Out West
8. Waiting to Talk
9. Fatal Flower Garden
10. Satisfied
11. Headsoak
12. How Indiscreet
13. Dear Old Greenland

have fun kids.

“Que inverno de merda, hein?”. Tá muito quente. Não tem vento. O ar ficou tanto tempo parado que coagulou. Coágulos de ar. E de repente eu não respirava mais. Assistia ao mundo como se não fizesse parte dele. Eu via as pessoas e esperava pelo vento, esperava que as pessoas trouxessem o vento. Não tinha ar. Tudo coagulou de tanto tempo parado. Coagulou o tempo, que parou. E eu queria PODER amar. Eu fiquei esperando, mas não fazia diferença, porque o tempo estava parado. As pessoas agiam como se o tempo ainda corresse, como se houvesse ar não-coagulado. Comecei a desconfiar das pessoas. Comecei a achar que tudo aquilo fosse arranjado. Tudo arranjado para me desesperar. Alguém veio falar comigo e eu não tive coragem de contar. Eu disse que estava tudo bem. Eu menti. Eu disse que havia vento e nem mencionei a coagulação do ar. Eu falei que o tempo corria e até que o tempo cura tudo. Eu não consegui contar. A pessoa pegou na minha mão, porque ela conseguia ver nos meus olhos, “que mão gelada!”. Tava tão quente. Eu não tive coragem de contar que eu não respirava mais. A pessoa me ofereceu um sorvete, porque ela conseguia ver nos meus olhos. EU não conseguia olhar nos olhos dela, por causa da cor, que me lembrava de alguma coisa que ficou perdida no tempo que parou. “Sorvete? No frio?!”, “não tá frio!”, a pessoa não sabia mais que era inverno. “E você adora sorvete!”, ela sorriu. Eu pensei na distância a qual se encontrava o sorvete, não fazia diferença. “É meio longe…”, disse a pessoa. Pensei no tempo e espaço, e cheguei à conclusão de que, com o tempo parado, não havia distância. Com o tempo parado, tanto faz se eu vou buscar sorvete na esquina ou no Japão. As coisas só ficavam longe, porque se levava tempo para chegar até elas. “Não tem problema, eu tenho tempo…”, menti. Achei que a pessoa fosse começar a perceber que o tempo havia parado, mas não. Imaginei que a pessoa também estaria disfarçando, sem coragem de me contar que já sabia. Desconfiei das pessoas. Comocei a achar que todo mundo sabia e estava disfarçando. Fiquei nervosa, estressada. Se o tempo estivesse correndo, quanto tempo já teria passado? Mandei a pessoa ir embora, porque não sabia mais nada. E ela foi, acredita? Porque é isso o que as pessoas fazem, elas vão embora quando a gente pede. Eu só queria PODER amar, mas não podia. Nem respirava mais, afinal. Lembrei que no avião eles dizem que o melhor é você colocar a sua própria máscara de oxigênio antes de ajudar a pessoa ao seu lado. Não tinha mais tempo também… não fazia diferença. Olhei para cima, pra ver se não tinha caído nenhuma máscara de oxigênio sobre a minha cabeça. Não tinha nada. Reparei que o céu estava meio pálido

 

Texto escrito no dia UM de agosto (eu não gosto de dizer ’dia primeiro’). 

Tem areia nos meus olhos. Olhos de praia.
Mar salgado. Mar amor. Areia eu. Meus olhos
ardem com a luz laranja do pôr-do-sol de inverno
na praia. Eu não durmo. Eu não durmo. Meus olhos
ardem, vermelhos, com insolação. Eu esfrego, sai
uma água cinza…salgada. Mar maquiagem. Mar
maquilado. Areia do meu lado. Do meu fardo.
Eu não durmo. Acho que é o tempo seco,
que meus olhos ficam colados. Aquele
líquido que lubrifica minha retina
evapora…é o tempo seco. Arde.
Eu não durmo. Não tem mais
lágrimas. É o tempo seco.
Todo o dia de manhã, o
nascer-do-sol não tem
a cor do pôr-do-sol. Eu
vejo o sol nascer, com os
olhos caídos. Eu tenho sono.
Eu tenho sonho. Tem concreto
nos meus olhos. É áspero. Meus
olhos ardem. Eu não durmo… Eu
esfrego tudo, sai uma poeira. Doente.
Eu devo estar doente. Tem concreto nos
meus olhos, mas eu vejo tudo abstrato.
Batman mágico… Céu que escorre nos
prédios. Vinho com leite condensado.
Eu não durmo… Eu não durmo… Eu
acordo como se não tivesse dormido.
Talvez eu nem tenha dormido. Tô
cansada. Talvez eu nem tenha
acordado. Talvez eu fique
dormindo o dia inteiro.
Dormir é não dormir.
Quando é acordar? Eu
nem quero saber. Eu não
durmo. Meus olhos ardem!
Minha testa pesa. Eu tenho
que dirigir. Eu tenho que digerir.
Tá difícil digerir. Dirigir também.
Indigestão. Talvez eu vá até a praia.
Indireção. Eu quero dormir. Eu luto contra
as horas em que eu deveria estar apagada. Eu
acordo cansada. Eu assisto ao céu. É um filme
que eu vejo todos os dias… Quando eu tenho
insônia, jogo areia pro alto. Cai no meu olho.
Eu adoro a praia a noite. Eu não durmo. Mar
salgado. Mar gelado. Chuva na praia. Lava
a areia do mar. Eu sou a areia, o mar vem
…o mar vai. O mar vem de novo. Mar
turvo. Mar amor. Areia em mim. O
mar vai de novo. Mar amargo.
Nos meus olhos. Ardem. Eu não
durmo. Boca seca. Cabeça pesada.
Tem um buraco na areia da minha cabeça.
Passa água.Tem uma concha com o barulho do
mar. Me sinto na praia. É o vácuo. É o tempo
seco. Eu tenho sede. Eu sequei a areia da praia
e ninguém disse nada. Eu não durmo. O mar nunca
mais voltou. Eu não durmo. Eu não durmo. Tinha

sangue na areia da praia e ninguém fez nada.
Eu sequei a areia da praia e ninguém disse
nada. Recolhi toda a areia da praia e
ninguém viu nada. Nada.
Tem areia nos meus
olhos. Eu vou
refazer o mar.
Eu não durmo. Eu
não durmo. Eu não
durmo… Eu não
durmo.Eu não
durmo….

 

[01/08/2008 - texto escrito na madrugada....  são 08:44 da manhã, vou tentar dormir de novo]

UM LIVRO DE LOURENÇO MUTARELLI

Hum… acho que eu nunca falei sobre um livro assim, para indicá-lo. Devo fazer uma sinopse? Acho melhor, né… (eu não sou muito boa nisso)
Mas vamos lá – sinopse: É um cara, o Júnior, e ele resolve largar a mulher e o emprego por motivos muito escrotos que eu não vou contar. hahaha. Na verdade, é meio que pelo mesmo motivo escroto que ele larga as duas coisas. Como ele não tem pra onde ir ele vai morar com o pai, e fica lá dormindo no sofá. E ele vendia auto-peças…então ele tem mania de lembrar dos códigos e nomes de cada peça. É bem legal isso no livro, porque do nada aparecem uns números com um nome de uma peça do lado, e geralmente a peça tem a ver com as imagens do texto, entendem? Não, né…hahaha. Então… ele começa a receber uma caixas anônimas, com várias coisas, mas tudo gira em torno de uma notícia de um escritor da geração beat que assassinou a mulher numa brincadeira de atirar no copo que estava na cabeça dela. E aí ele começa a ficar meio louco, e ele fica tentando achar a mensagem que querem passar pra ele. Ele acha que não querem dizer o que está escrito, que querem dizer algo além, entendem? Putz…sinopse tem que ser pequena, né? Enfim… o fato é que ele começa a ficar louco, muito louco mesmo. E o texto acompanha o nonsense da cabeça dele, que é pra deixar o leitor meio perturbado também. Ah… LEIAM.
[A idéia também é bem legal, porque mostra o Júnior como uma cara bem medíocre, assim... como se não fizesse a menor diferença ele ter largado tudo. Porque antes ele trabalhava pra pagar as contas, e agora ele não trabalhava mais, mas também não tinha mais contas pra pagar. É como se mesmo ele largando tudo, tentando mudar o rumo da sua vida, tudo continuasse a não fazer sentido, sabe?]

Então, o autor. É bom falar do autor também, né…
Esse Lourenço Mutarelli é o cara que escreveu O CHEIRO DO RALO e O NATIMORTO. Vocês devem conhecer, porque foram adaptados para cinema. Ah, pelos menos “o cheiro do ralo” vocês conhecem, pelo amor…
Aliás, podiam adaptar esse livro pra cinema também! Seria muito bom.

Acho que é isso.

Caramba, eu fiquei muito louca depois que eu li esse livro.
Talvez eu tenha lido muito rápido.
Ou talvez eu seja meio louca mesmo.
Ou talvez sejam as horas sem dormir.
Ou pode ser que tenha uma taenia solium enrolada no meu cérebro. hahaha
LEIAM LEIAM LEIAM LEIAM

[31/07/08 - 08:08a.m]
insônia matutina
enjôo enjôo enjôo

Conversa entre alguém que não consegue concluir raciocínios e alguém que não consegue raciocinar conclusões.

30/07/2008 00:33:01 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
hahahaha, ta beem
um pouco antes do lado de dentro

30/07/2008 00:33:12 Fer. diz:
um pouco antes do lado de fora.
30/07/2008 00:33:26 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
han…
eu tô confusa… não me confunda ainda mais
30/07/2008 00:33:47 Fer. diz:
hahahahaha
não se confunda
uma frase que uma anciã da minha família sempre falava pras minhas tias: “as nuvens sempre sabem pra onde vão”
30/07/2008 00:35:04 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
gostei da frase
queria ser uma nuvem
30/07/2008 00:36:27 Fer. diz:
deve ser gostoso ser nuvem
30/07/2008 00:36:40 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
é….. =(
30/07/2008 00:36:44 Fer. diz:
menos quando os aviões as cortam. ou quando está chegando o temporal.
30/07/2008 00:37:01 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
elas choram..
elas foram embora, nunca mais vi nuvens
30/07/2008 00:37:21 Fer. diz:
elas choram elas mesmas
30/07/2008 00:37:27 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
todo o dia é céu-de-brigadeiro
pois é….eu queria chorar eu mesma, pra não restar mais nada (às vezes)
tipo agora
30/07/2008 00:38:34 Fer. diz:
agora você devia querer ser uma estrela. as estrelas sempre são ótimas imagens.
30/07/2008 00:39:01 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5
não….eu não quero brilhar, nem quero estar lá mesmo não estando
30/07/2008 00:39:12 Fer. diz:
ou o próprio céu. você é mais estrela que nuvem, mas é mais céu que estrela.
porque a nuvem acaba e a estrela também. o céu muda mas está sempre lá, mari
30/07/2008 00:39:34 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
eu quero ser nuvem!!! agora eu só quero ser nuvem
30/07/2008 00:40:22 Fer. diz:
é… elas sempre sabem pra onde vão. =)
30/07/2008 00:40:30 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
é…

(…)

30/07/2008 00:53:53 Fer. diz:
porque você é uma nuvem… e elas só flutuam por aí, se colorem com o passar do dia, deslizam tranquilas à noite… se contrastam com o azul do brigadeiro, com o negro noturno… pra elas não faz diferença se é o azul do dia ou da noite, ou se é um pôr-do-sol, transição. elas se carregam das cores e pairam no ar pra serem admiradas e admirar o mundo. as nuvens são macias porque se colocam no lugar da terra, porque não querem ser aquilo sólido e agressivo ao toque… são aquilo, mesmo que à beira da tempestade são nuvens, são macias, são vivas, são mutáveis, são nuvens! =)
30/07/2008 00:54:40 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
=(
eu vou chorar

 

[31/07/2008 - 00h33min]

insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia
insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia
insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia/insônia

Construi uma barreira de gelo
porque achei que gelo seria uma boa.
Frio, porém transparente.
Dava pra ver, mesmo que um pouco
embaçado, tudo o que tinha do lado de lá,
o que não era eu.
(ou talvez fosse)

Funcionou bem no dia do teste.
Cumpriu sua função de proteger,
apesar de me deixar meio fria…
Mas no outro dia,
o dia mais seco do ano
(talvez de muitos anos),
foi diferente.
Não sei se tava muito quente,
porque até meu rosto ficou um pouco vermelho…
mas é que derreteu no topo.
(quase…
quase deixei escorrer!)
Foi ruim.
Os átomos na água ficam mais dispersos,
bagunçados…
fiquei com medo que evaporasse?
Achei que fosse o tempo seco.

Eu construi uma barreira de gelo,
mas o meu tempo sempre é verão.
Todo o dia eu recomeço
Todo o dia eu recomeço
Todo o dia eu recomeço
(E se eu quisesse terminar rimando
eu diria que é em vão)

 

[Texto escrito hoje, enquanto eu sentia frio e a sensação boa de estar vulnerável no vão do masp, perto daqueles libertinos-que-tocam-muita-música-boa e em baixo daquele bloco de concreto]

É isso, e são 23h23min. E talvez eu goste da adrenalina de achar que um bloco de concreto pode cair na minha cabeça. A qualquer momento.

 

—Uma mensagem para meu parceiro: Eu troquei o layout de novo, porque aquele tinha um problema. Não aparecia quem postou o quê. E isso é um problema para um blog de duas pessoas…. (desculpa minha incompetência em não conseguir mudar, hahaha) Faça isso você, que entende dessas coisas. Brigada. É isso. —

Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim

 

Pati foi lá e vendeu todos os sonhos. E como ela ainda não sabia o quanto eles valiam, ela vendeu cada ovelha por 40 reais, o infinito por oito reais, todos os morangos que ela colheu por 100 reais, o céu por cinco reais (porque era inverno e tinham poucas núvens), a caixinha azul (com a chave correspondente) por quatro reais, e toda a coleção de idéias criativas por mais 50 reais. No fim, ela cobrou 287 reais por tudo e o cara que usava o uniforme do mundo pagou com três notas de cem, além de uma dose de apatia que seria o suficiente para ela sobreviver, e disse que ela podia ficar com o troco se ela levasse um chiclete pra ele todos os dias. Ela achou aquilo bem digno, e ia ser aquilo todo o mês pelo resto do tempo que ela não sabia o quanto ia durar.
Pati passou a vestir o uniforme do mundo todos os dias, porque é regra. E, por causa da dose de apatia, ela não sentia falta dos sonhos e nem sentia falta de nada. É assim quando se é apático, você não sente falta nem de sentir falta, e isso é o que te conforta quando você não tem tempo de se emocionar com a vida.
“You try, but life is a game.”
E demorou um tempo até que Pati percebesse o que tinha acontecido com ela. Foi num dia de sol e céu-de-brigadeiro, com um pôr-do-sol laranja que lembrava algo que ela não lembrava, e ela chegou em casa mais cedo, porque passara mal enquanto fazia o que tinha que fazer. É que todo mundo passa mal quando a vida fica estranha. E eu acho que a mudança na rotina foi o motivo pelo qual ela deve ter parado pra pensar. Ela viu seu sapato jogado na sala com a sola virada pra cima e correu pra desvirar (porque diziam que isso dá azar). Foi aí que ela viu que havia uma borboleta maravilhosamente-morta-esmagada na sola de seu sapato. As cores de suas asas se misturavam, formando um desenho bonito e brilhante, e aquilo foi demais para a sua recém-comprada apatia. Ela se comoveu, mesmo tentando se controlar pensando que era só uma borboleta que ela tinha matado. Ela tinha matado! Mas era uma morte linda, colorida e brilhante. E Pati era uma assassina sorridente. Sorrindo, porque ela não tinha escolha.
Pati voltou para falar com o cara que usava o uniforme do mundo, e disse a ele que não queria mais os trezentos reais por mês, e que queria seus sonhos de volta. Ele se recusou a devolver, alegando que ela tinha vendido e “quando você vende, já era!”. Foi então que ela mostrou a borboleta esmagada pra ele, e a ofereceu em troca de todos os sonhos vendidos. O cara do uniforme olhou para aquele monte de cores misturadas e brilhantes e acho que ele meio que se perdeu ali, porque ele aceitou devolver todos os sonhos da Pati por aquela criatura tão naturalmente-morta-colorida. Pati foi embora dali pra nunca mais voltar, deixando a apatia e o uniforme. Ela foi atrás da vida e encontrou um mundo, mas esse mundo era muito grande e ela se perdeu. Pelo menos ela nunca mais vendeu seus sonhos e um dia ela percebeu que, para se achar, ela TINHA que ter se perdido. Já o cara que usava o uniforme do mundo, ele nunca mais soltou a borboleta morta, e nunca mais vestiu aquilo. E um dia, ele mascou vinte chicletes de uma vez, fazendo uma bola tão grande (tão grande), que ele saiu voando pela janela e começou a fazer parte do céu que fazia parte dos sonhos da Pati. Assim, a borboleta morta arranjou um jeito de voltar a voar no céu. Todo dia Pati olhava para o céu, e sempre tinha a sensação de que tava tudo ali, mesmo que ela não encontrasse nada. Sem falar que todo dia tinha pôr-do-sol.

 

E era assim: o que quiser que tenha, tinha. Tinha arrebol? Tinha. Rouxinol? Tinha. Luar do sertão, palmeira imperial, girassol, tinha. Também tinha temporal, barranco, às vezes lamaçal, o diabo. Depois bananeira, até cachoeira, mutuca, boto, urubu, horizonte, pedra, pau, trigo, joio, cactus, raios, estrela cadente, incandescências. Enfim.

- Ôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôô!!!!!!!!!!!

[hoje é dia vinteoito de julho de doismileoito, e são onze-eoito da noite]

Tchau 

A gift

July 28, 2008

Ursos que parecem ovelhas para luciendescai que parece lucy in the sky

Once upon a time

July 28, 2008

Espero que os meus posts sem personalidades sejam bem-vindos no meu blog recem dominado por forças nem tão estranhas e nem tão cruéis.

Sou péssimo para isso, mas se eu não começar se algum jeito vou acabar apagando umas 50x a primeira linha até desistir de postar, como eu fiz desde que criei esse blog…

Por sorte, mesmo que tal coisa não exista, conheci luciendescai, e ela me inspira a escrever…

Sempre imaginei a vida assim…

Alguns anos de tortura em uma instituição de ensino fundamental ao médio até o vestibular…

Passando no vestibular, no instante seguinte, me encontraria em um apartamento, com um carro, dinheiro e felicidade… ha-ha

Mesmo depois de aprender tanto sobre os mecanismos tortos desse planeta ainda, que incoscientemente, acreditava em tudo isso.. ha-ha

Mas essa ainda é a peça que falta no quebra-cabeça, nunca vou saber a verdade antes de abrir a porta e a chave, ainda que não seja mais dourada e brilhante como foi um dia, ainda é a chave (vestibular).

No entanto soube dar tempo ao tempo… e descobri muito mais sobre a vida, muito além do que a minha ambição material almejava, muito mais do que a minha alma artista sonhava…

Descobre-se amor, amigos, responsabilidade e a dor de perder tais coisas.

Nem mais uma palavra… já nem sei mais o que estou falando.

Boa noite e boa sorte.

Saudades de sentir saudades.

Kaio – lúcido apagado
 
Eu me distraio de mim mesmo
porque eu seria capaz de me destruir
Eu me distraio da minha vida
com outras vidas
pra não ver os destroços que ficaram
 
Eu me distraio com os destroços
como se fossem brinquedos
já que eu não consigo sair dalí
 
Eu não sei mais se sou
destrutivo ou destrutível
distraído ou distraidor
 
traidor
de mim mesmo
Eu me distrato
Eu me forço a dormir
quando meu corpo não aguenta mais sonhar
Eu me forço a comer
como os destroços, em pedaços
quando o que eu quero é vomitar
Eu me sinto vivo como nunca
como nunca antes eu desejei nunca ter nascido
 
Eu me distraio comigo mesmo
pra não me destruir
 
Eu sou um destruidor
detestável
distraidor
divagante
traidor
com muita esperança.
 

 

Um poema nauseante para homenagiar todas as vidas nauseantes do mundo.
E vivam em paz.
 
 
Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car.
 

 

[26/07/2008 - de manhã ou algo assim] 

 

Eu editei esse post pra colocar essa música do radiohead, em homenagem a banda cover do readiohead que vai tocar hoje na funhouse.

FITTER HAPPIER

Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week),
getting on better with your associate employee contemporaries, at ease,
eating well
(no more microwave dinners and saturated fats),
a patient better driver,
a safer car
(baby smiling in back seat),
sleeping well
(no bad dreams),
no paranoia,
careful to all animals
(never washing spiders down the plughole),
keep in contact with old friends
(enjoy a drink now and then),
will frequently check credit at
(moral) bank (hole in the wall),
favors for favors,
fond but not in love,
charity standing orders,
on Sundays ring road supermarket
(no killing moths or putting boiling water on the ants),
car wash
(also on Sundays),
no longer afraid of the dark or midday shadows
nothing so ridiculously teenage and desperate,
nothing so childish – at a better pace,
slower and more calculated,
no chance of escape,
now self-employed,
concerned (but powerless),
an empowered and informed member of society
(pragmatism not idealism),
will not cry in public,
less chance of illness,
tires that grip in the wet
(shot of baby strapped in back seat),
a good memory,
still cries at a good film,
still kisses with saliva,
no longer empty and frantic
like a cat
tied to a stick,
that’s driven into
frozen winter shit
(the ability to laugh at weakness),
calm,
fitter,
healthier and more productive
a pig
in a cage
on antibiotics.

 

Eu tava sem inspiração, então eu escrevi essa história não muito inspirada.

 

Ela olhou pra ele e pensou por um momento num pensamento que ela já tinha pensado antes. E, num surto psicótico, ela atirou as cobertas para o lado e colocou um disco do Elvis na vitrola. Ela pulava no colchão jogado no meio da sala, dançando a música histérica que tocava enquanto passavam as letras do filme que eles já tinham assistido. Ele ria e tentava segurar suas pernas, mas ela realmente estava tendo um surto psicótico, e ela achava que dançando loucamente sem parar, e com os olhos fechados, ela poderia sair dalí para algum lugar distante, como Paris. Ele desistiu de tentar segurá-la e, enquanto ela continuava a pular desvairadamente, ele confabulava. “Eu sinto como se eu pudesse viajar no tempo com você, sabe…você me dá a sensação de não haver tempo nem espaço. Eu me sinto nos anos 60…em algum lugar que não é esse”. “Deve ser porque a gente TÁ nos anos 60″, ela caiu no colchão e ficou ali jogada, como se estivesse morta. “Eu acho que nós podemos chegar juntos no infinito…e aí a..”. Ela deu um berro de angústia que o fez parar de falar. “O que foi?”. “Eu acho que essa foi a coisa mais legal que já me disseram, mas… cala a boca, por favor! Nós não podemos chegar JUNTOS no infinito”, ela se sentou descabeladamente, e com a mão direita ela apertava o seu pulso esquerdo. “A gente pode sim…”, ele pegava na mão esquerda dela e afastava o cabelo de seu rosto, “eu acho que…eu amo você”. Ela puxou sua mão esquerda da mão dele num susto. “Não, não, por favor não”, ela dizia num tom de pré-choro-desesperado. “Você nem PODE me amar! Você nem me conhece!”, ela assustava o garoto. “Eu não preciso….olha, você não precisa surtar! Nem dizer nada! Eu só tô te dizendo o que eu sinto”. Ela foi se levantando, abriu as janelas e olhou para o céu. “Você não deve sentir isso. Desculpa, eu não queria….eu não posso pensar sobre isso agora, eu não consigo mais. Você nem devia estar aqui. Eu acho que eu não fui sincera o suficiente, eu não te contei tudo. Eu não posso. Eu não posso, eu não consigo! Tem uma coisa que me prende, e eu fico esperando. Esperando no infinito! É por isso que nós não podemos chegar lá juntos. Eu ainda me sinto presa a essa coisa, e me dá uma sensação ruim você aqui agora..”, ela dizia de costas para ele. “Então, eu acho que vou embora”. Ela não disse nada e não se virou, ela não ia suportar aquela cena de novo. Ela ouviu os passos de sempre, o mesmo barulho da porta se abrindo, mais passos, e o barulho insuportável da porta se fechando. Ela aumentou o som, porque ela não queria escutar ele indo embora. Não que ela estivesse triste por ele ir embora. Ela só estava cansada de gente indo embora. Ela chorava, enquanto o Elvis cantava “Love me tender”. Ela tinha azar na combinação de músicas com momentos. Foi então que ela decidiu, arrumou suas coisas e, sem deixar nenhum bilhete, ela se foi. Os mesmos passos, o mesmo barulho de porta se abrindo, mais passos…e agora era ELA que estava do outro lado da porta, e ela teve o prazer de ouvir o barulho insuportável da porta se fechando. Ela colocou os fones no ouvido, porque ela não queria escutar o som de mais alguém indo embora, mesmo que fosse ela. Ela saiu voando por aí, para o infinito e talvez até além, e ninguém nunca mais soube dela. Ela ficou conhecida como A-menina-que-foi-embora-depois-que-todo-mundo-já-tinha-ido. Anos se passaram e ninguém sabia o que havia acontecido. Porém todo mundo continuava dizendo “Ela não morreu”.  ∞

 

Essa foi a triste história das pessoas que precisam esperar morrer pra poder se libertar.

 

E vão em paz.

 

[25/07/2008 - 17:17h]

 

Metáforas e migalhas

July 23, 2008

” E até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei”
 
- Moço, você me deu troco a mais.
- Eu sei. Finge que não percebeu, menina, e vá embora.
- Mas eu percebi. Toma, eu não quero troco a mais.
- Você é bem boba, hein.
- Por que você tá fazendo isso?
- Porque você já pagou demais…
- Eu paguei o que eu comprei!
- Mas o que você comprou não vale o que você pagou. São só migalhas… Aliás, você sabe que não vale a pena, então por que você comprou?
- Porque eu precisava!
- Não, não precisava…
- Mas eu QUERIA!
- Mesmo sabendo do preço que você teria que pagar?
- Eu não sei se eu sabia… acho que eu tinha esperanças de que não ficasse tão caro. Mas, mesmo assim… mesmo depois de ver o preço, eu achei que tinha que pagar.
- Você não tinha, mas tudo bem. Essas coisas não têm explicação. Eu só acho que você não merecia… são só migalhas!!
- Eu sei que não mereço, mas o que eu posso fazer?! Agora se paga por peso! E, mesmo sendo só migalhas, elas pesam demais.
- Tudo bem, menina. Eu não vou insistir, assim como você não deveria insistir em pagar tão caro por migalhas. Chega de conversa, vá embora.
- Tá, mas toma o troco que você me deu a mais.
- Fica com ele.
- Você tem pena de mim, porque você acha que eu tô fazendo a coisa errada, não é?
- É. Todo mundo sabe.
- Não. Na verdade, ninguém sabe! Só EU sei porquê vale a pena pagar esse preço. Me deixa com minhas migalhas! E se eu vou comprar de novo ou se eu vou comprar SEMPRE, sou eu que decido!! Toma o seu troco a mais, porque eu não preciso disso! Eu sei o que tô fazendo…
- Mas qual o problema de aceitar uma ajudinha?
- Eu não quero ficar com nenhuma pendência.
- Então tá. Eu espero que isso passe.
- Vai passar. 

“Me diz o que é o sufoco, que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar”

 

[23/07/2008 - 22:47h] 

 

 

 

 

Me, I’m just a lucky kind.

Love to hear you say that love is love.

 

 

Ela tentou colocar um Band-Aid no desenho de coração partido que ela fez em seu caderno. O Band-Aid saiu do lugar enquanto ela transportava o caderno na bolsa e as páginas ficaram coladas uma na outra. Ela nem queria mais abrir aquela página, mas mesmo assim fez um esforço que foi demais para o caderno. As páginas rasgaram. As duas. Ela chorou, porque aquilo era o fim.

Então ela colocou o disco do Elvis, o rei. E ela ouviu numa música que o Elvis roubou do Bob Dylan, ou que o Bob Dylan roubou do Elvis (o que é menos provável), que “There ain’t no use to sit and wonder why, baby”, e ela chorou, porque aquilo era o fim. Ela chorou, porque o Elvis talvez estivesse morto e porque, em vida, ele roubava músicas do Bob Dylan. E ela lembrou de uma história que ela ouviu um dia, de um cara com muita credibilidade, que depois que o Elvis morreu ele supostamente entregou isqueiros Zippo para os soldados do Vietnã. E ela lembrava bem do dia em que ouviu essa história, sentada naquela pedra gelada de beira de psicina. Ela chorou, porque ela também sentia falta do cara com credibilidade.

Ela chorou, porque era a primeira vez que ela arrancava uma flor de algum lugar, e a flor era de plástico! E aquilo era o fim!! Mas ela percebeu que o destino dela era, definitivamente, nunca arrancar uma flor de seu lugar. (Mas como que ela não percebeu que a flor era de plástico?). Ela lembrou de quando uma vez ela ganhou flores, de um cara com uma boina que a esperava na porta do colégio. Ela pensou em como tinha sido ridículo o fato dela ter tentado fugir quando ela viu o cara com as flores. Ela até lembrou que ao invés de dizer ‘obrigada’ e sorrir, ela perguntou ‘O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI!?’

Ela percebeu que ela não tinha escrúpulos mesmo. Que talvez ela já tivesse detonado a vida de muita gente com colocações agresssivas. E que devia ser por isso que ela estava sentada naquela mesa para quatro pessoas completamente sozinha, e que quando grupos de três ou quatro pessoas chegavam e olhavam pra ela com cara de mau-humor, por ela estar ocupando SOZINHA o lugar de quatro pessoas mais confortável do recinto, ela só fingia que não via e continuava escondida atrás da montanha de guardanapos que ela tinha feito. Ela chorou, porque aquilo era o fim, e porque ela estava acabando com o meio-ambiente desperdiçando todos aqueles guardanapos.

Então ela pensou sobre a sua vida e percebeu que essa história era muito normal, porque todo mundo chora, todo mundo gosta do Elvis, mesmo que ele cante músicas do Bob Dylan, todo mundo confunde flores de plástico com flores de verdade às vezes (ela esperava), todo mundo faz colocações agressivas quando não deve, e todo mundo acaba com o meio-ambiente.

Daí ela olhou pro andar de baixo e tinha um garoto bonito lendo um jornal, tomando um café e aquele shot de águinha nojenta com gás. E ele tava do lado do vaso de flores de plástico. E ele tava ouvindo música, o que podia significar que havia alguma probabilidade dele estar escutando o Elvis cantando alguma música do Bob. E ela pensou: poxa, como a vida é comum.

Então um mini-disco-voador adentrou no recinto e abdusiu o garoto bonito com o jornal e o café (menos a águinha nojenta com gás). E o mini-disco-voador ficou pairando sobre a mesa dela por um momento, até que despejou o garoto bonito do outro lado de sua mesa. Ele ficou olhando pra ela, enquanto enrolava uma folha do jornal de maneira bem fina. Ela usou o poder de sua mente para produzir uma bola de fogo com as mãos e acendeu o cigarro de folha de jornal do garoto bonito. Mas ela tava de saco cheio de tudo aquilo e atirou a bola de fogo pra incendiar as pessoas que a olhavam com cara de mau-humor. Um cheiro de churrasco invadia as narinas dos dois. O menino tirou sua fenix de estimação da mochila e começou a alimentá-la com as cinzas do cigarro.

- Nossa, eu adoro fenix!

- Você também não acha que a vida é comum?

- Ah, o destino…

Os dois choravam de emoção, porque aquilo era o fim, e porque a vida era muito comum. E quando os dois estavam saindo juntos do recinto, de mãos dadas, o menino arrancou uma das flores do vaso de flores de plástico e romanticamente deu a ela. Ela sorriu e disse ‘obrigada’, e ele chorou, porque aquilo era o fim.

 

Someday when we’re dreaming,

Deep in love, not a lot to say…

Then we will remember

Things we said today.

às vezes eu páro pra ler o que eu escrevo e eu penso “caramba, que tosco.”

[22/07/2008 - 23:54. E já é quase amanhã...]

Memórias do subsolo

July 21, 2008

E eu que achei que tinha virado outra pessoa…

Agora eu achei este texto aqui, de 6 meses atrás… e percebi que eu ainda sou a mesma. Que droga de personalidade inflexível.

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TRANSTORNO BIPOLAR

Pela cebola de vidro ela podia ver várias estrelas. Não era o seu céu. O seu céu não tinha estrelas. Ela tira a cebola de vidro da frente de seus olhos, só para confirmar. Lá estavam as várias estrelas, agora nítidas, nítidas como estrelas. Ela volta a ver através da cebola de vidro, como se o fato de haver tantas estrelas não fosse estranho. Ela não estranha mais nada. Ela nem acha mais que sua vida é real. Aquelas tantas vezes que ela olhava para o relógio no dia e os números estavam iguais foram suficientes para confirmar sua tese. Ela não entende os estranhos acontecimentos. Ela está perdendo todos os detalhes. Justo ela. Ela não tem mais controle sobre os acontecimentos. Eles simplesmente vão passando, e vão passando os detalhes, e quando ela vê…já perdeu todos. Ela não consegue focar e ela não tem certezas importantes. É importante ter certezas importantes, eu quero dizer…alguma certeza que não seja a de que todos os dias tem pôr-do-sol. Ela só olha para o céu agora. Ela deseja ser engolida por ele. Ou pelo menos suplica que ele a dê respostas. E até o céu já não é mais o mesmo. Ele tem estrelas agora. Estrelas! Em plena cidade de São Paulo. Em pleno ano de 2008. Ela só queria sentir os detalhes com maior intensidade. Talvez isso fizesse com que ela voltasse a achar estranho que houvesse estrelas no céu. Ela continua a olhar o céu pela cebola de vidro. Ela gosta do efeito distorcido que a cebola faz com as imagens. Ela enxerga tudo distorcido. Aquela cebola é só uma ilusão. Ela ficou tanto tempo fugindo da realidade, que agora que não pode mais, ela não sabe o que fazer. Ela só precisa de algumas certezas importantes. Ela nem se acha real. Agora ela passou a achar que sua personalidade, seu temperamento não a pertencem mais. Ela não sabe mais quem ela é. Ela não sabe o que pensar. Ela não faz mais nada. Ela só olha para o céu. Olha para o céu e pensa. Pensa em pensar em algo que faça sentido. Mas isso já não parece mais possível.
Às vezes eu penso que vou ficar louca, ou algo assim. Louca de tantos esclarecimentos sem certezas. Quanto mais o mundo parece claro, menos eu tenho certezas. Um dia, quando eu tiver entendido o mundo, eu não terei mais nenhuma certeza. Então eu vou sucumbir. Eu vou sucumbir a tanta clareza. Talvez seja por isso que as pessoas gostam de se alienar. Porque quando você não entende, você tem mais certezas. E certezas, pelo menos, trazem segurança. Eu não tenho segurança nenhuma, e nem quero ter. O problema é que isso torna tudo mais difícil. Eu nem acho mais estranho o fato de haver tantas estrelas no céu de São Paulo. Eu não posso mais fugir da realidade e isso está me sufocando. A realidade me sufoca de tal maneira que eu não consigo focar em nada. Até me dá nauseas ler um livro. Eu só queria fechar os olhos como todo mundo. Fechar os olhos para poder acordar. Mas eu não sei mais se isso tem volta. Eu já me sinto tão distante dessas coisas que eu não suportaria voltar para elas.
As nuvens fizeram o favor de tampar as estrelas. Ainda bem. Aquilo já começava a incomodá-la. Mesmo ela não achando mais estranho. Ela quer que tudo volte a ser fácil. Ela quer pensar mais com a razão. Ela sente que perdeu completamente a razão, porque ela só sente. Ela sente tudo. Ela sente tanto que ela não consegue mais sentir os detalhes, porque são muitas coisas para se sentir ao mesmo tempo. Deve ser esse o problema. Tanto sentimento é que deve ser sufocante.

Ela nem sabe mais o que a sufoca. Ela não sabe nada, diga-se de passagem. Ela só sente e sente tanto que sente que já não sente mais nada. Ou que não há nada para ser sentido.

Talvez nada seja real mesmo e eu estou aqui perdendo meu tempo com essas coisas sem sentido algum. Eu só queria voltar ao normal. Aquelas estrelas! São tantas e elas estão tão incrivelmente intensas que vê-se até através das nuvens!

 

Ela voltou a achar um fato estranho em ter tantas estrelas. Ela simplesmente não se importa mais.

Ela queria que toda essa viagem alucinante que ela tem sentido virasse um filme. Para que todos pudessem compartilhar dessa experiência. Mas ela pensa que isso geraria um caos total. Uma crise existencial em escala global que abalaria toda a sociedade.

Não. As pessoas não são mais assim. As pessoas sofrem a catarse, mas alguns minutos depois elas já se esqueceram. Elas têm sentimentos muito passageiros. Elas só querem viver a vida delas. Elas se encontram aqui, esse é o contexo, não há porquê mudar. Elas não vêem razão pra isso. E elas estão certas. Porque não há razão, de fato.

O que é transtorno bipolar?

[texto escrito em 09 de janeiro de 2008 - por volta da uma da manhã]

 

 

21/07/2008 – 23:23h

 

 

Eu quero ver de novo

Eu quero ver novo

verde vermelho

de verdade

Eu abro todas as janelas

pra poder ver melhor

o vento

o verde e o vermelho

de novo

Eu penso bem antes de abrir cada uma

Ou vice-versa

Eu nem penso

de verdade

O vento, que é tipo um sentimento

às vezes fecha as janelas

Mas eu abro de novo

Eu não canso de ver

Ver novo

Ver de novo

Eu só canso de abrir janelas

Verde vermelho

Vice-versa

Eu quero ver verdade

Verde verdade

mesmo que seja de novo

 

 

[21/07/2008 - 10:45a.m]

 

“-Você parece o Céu cinco minutos antes da tempestade…

- Você também.”

 

“Você perde o medo que é parecido com o que sentem os animais escondidos atrás de sofás ou debaixo de escadas. Você tem coragem e escala muros, diz adeus, bate a porta e o som surdo não incomoda. Você atravessa as ruas, não olha para os lados, caminha pelas bordas, não olha para baixo. Você segue até o fim, vira às esquerdas, paga o quanto eles querem. E é assim que acontece a partir de agora.”