Medo: 1. Sentimento de viva inquietação ante a noção de perigo real ou imaginário, de ameaça; pavor, temor. 2. receio.

Eu tenho medo. Eu vivo disso. Porque, na verdade, eu acho que a vida é assim. Um monte de medo. Não há nada no escuro que já não houvesse no claro, a não ser o medo. E se eu tenho medo do escuro, eu tenho um motivo para ficar no claro e fazer de tudo para continuar lá. E a vida é basicamente isso, eu acho. Ficar buscando motivos para que tudo faça sentido. Afinal não teria sentido ficar no claro se eu não tivesse medo do escuro. E se ninguém tivesse medo de morrer, ninguém estaria vivo agora. É o medo que me move. É o medo que move o mundo. O medo e o amor. Eu amo ficar no claro, e é por isso que eu tenho medo de ficar no escuro. Eu tenho medo de não poder fazer o que eu amo sempre. Na verdade a gente sempre pode, mas tem aqueles ‘poréns’. Eu tenho medo dos ‘poréns’. Mas se os ‘poréns’ não existissem, e a gente sempre fizesse o que amasse, será que a gente ia amar tanto? E depois, quando a gente consegue o que quer… a gente faz o quê? Há um vácuo momentos depois de cumprir uma tarefa. O medo gera ansiedades, inseguranças, e ainda mais medo de mais coisas. Ás vezes é difícil lidar com o medo. Mas livrar-se dele não adianta, porque aí fica um vazio. O bom é passar por cima deles, porque aí a gente se sente bem, se sente forte. Eu acho que todo mundo tem medo do que vai acontecer com a vida. Antes eu tinha muito mais medo da vida. Agora eu tenho mais medo da morte. Porque não tem como dar nada errado com a vida, a vida é certa por si só. Eu gosto de ter medo, porque talvez eu tenha medo da segurança. Se algum dia eu não tiver mais medo, eu vou viver de quê?!
Me tirem tudo, mas não me tirem meus medos! Se eu tiver que acreditar em alguma coisa, que seja no meu medo. Eu confio no meu medo. Lá é mais (in)seguro. Se eu não tiver medo, eu não tenho mais porquê.
Eu tenho medo de inseto! Eu tenho medo de dentista! Eu tenho medo da vida! Eu tenho medo da morte! Eu tenho medo das pessoas. Eu tenho medo de mim!! Eu tenho medo de COR PASTEL!! Eu tenho medo de permanecer. Eu tenho medo de internet. Eu tenho medo de doença. Eu tenho medo de fugir. Eu tenho medo de sonhos! Eu tenho medo do que vão pensar. Eu tenho mais medo do que EU penso! Eu tenho medo de surpresa. Eu tenho medo de amar!!!!!! Eu tenho medo de não amar. Eu tenho medo de telefone. Eu tenho medo de coincidências. Eu tenho medo de porta-giratória. Eu tenho medo de guincho. Eu tenho medo do Sol. Eu tenho medo do novo. Eu tenho medo de me arrepender. Eu tenho medo de ter medo. Eu tenho medo de ter coragem. Eu tenho medo de dinheiro. Eu tenho medo de dúvidas. Eu tenho medo que a razão prevaleça sobre meus sentimentos. Eu tenho medo dos meus sentimentos. Eu tenho medo de espirrar. Eu tenho medo de festa. Eu tenho medo de polícia. Eu tenho medo de buzina no túnel. Eu tenho medo de perder. Eu tenho medo de ficar no chão. Eu tenho medo da segurança que acomoda. Eu tenho medo de remédio. Eu tenho medo do fato do planeta Terra estar flutuando no Universo. Eu tenho medo do que não existe. Eu tenho medo de me sentir presa. Eu tenho medo do teatro. Eu tenho medo de carreira. Eu tenho medo da realidade. Eu MORRO de medo da realidade, putaquepariu!!!!!!!!!! STRAWBERRY FIELDS FOREVER
 

 

 

CLASSIFICADOS

“Oi! Eu tenho um lado-direito-do-cérebro HIPERfuncional, e eu queria trocar por um coração (em bom estado). Interessados, favor entrar em contato comigo mesma via Telegrama (assim que o correio sair da greve). Obrigada. Beijosmemandaumtelegrama!”

 

[É preciso não esquecer nada - Cecília Meireles]

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

 

18/07/08 – 16:22h

 

Ela não sabe mais se não dorme porque fica pensando ou se fica pensando porque não dorme. Aquela imagem, daquela garota no espelho da loja, fica fixa na sua cabeça, assim como a garota na loja fica fixa diante do espelho. Dentro daquele par de botas, que ela viu de longe numa vitrine que ela-mesma jamais ousaria chegar perto, ela fica parada e pensando se aquilo complementaria o batom rosa-choque e a mini-saia-em-pleno-inverno que ela -mesma nunca usaria. Ela começa a andar pela loja desesperadamente e, enquanto a vendedora tenta manter a distância de um metro perseguindo-a pela loja e dizendo coisas que ela não está escutando, ela chega a conclusão de que poderia fugir de qualquer coisa, inclusive de ela-mesma, com aquele par de botas. Assim, ela fica vagando por aí (com o batom rosa-choque, a mini-saia-em-pleno-inverno e o par de botas) só pra checar se ela consegue realmente fugir de tudo o que ela quer deixar pra trás. Ela tenta novos hábitos, novos lugares, novas pessoas. E ela começa a achar que aquilo tudo realmente funciona, já que, desde que ela rejeitou seus quatro pares de All-Star, a calça jeans e a cara limpa, as novas pessoas que se aproximam dela são MUITO diferentes. Ela-mesma adorava os amigos nerds, intelectuais, artistas, revolucionários, mas as pessoas novas…ah, as pessoas novas ela não PRECISA gostar, porque as pessoas novas não se importam nenhum pouco com isso. “HA-HA-HA Que bobagem, querida!…Me passa o isqueiro, vai.” É só jogar conversa fora, tem coisa mais fácil? Nada de profundidade psicológica, análises divagantes ou algum tempo para questionar. Era só o isso o que ela precisava. Conversa-fora com gente que cheira bem (bem forte), um cigarro quando o assunto incomoda, e retocar o batom rosa-choque de vez em quando. Então, ela passa a maior parte do tempo assim, com esse par de botas. E quando ela o tira, a dor nas pernas é tanta que ela ainda se sente com ele. O que é bom, já que ela não quer lembrar de quem ela é sem aquele par de botas. Sem falar que… o que é uma dorzinha física pra uma Diva, não é mesmo?
O fato é que um dia ela tem que resolver o problema que era de ela-mesma, porque ela precisa disso pra seguir em frente com a nova vida. E quando ela chega lá, com a mini-saia-em-pleno-inverno-batom-rosa-choque-par-de-botas+cabelo-hidratado, e ela está determinada a agir de acordo com a sua nova vida, ela leva um susto. Diante daquilo que era parte de ela-mesma, quase metade de ela-mesma, ela não consegue ser NADA além de ela-mesma. Ela começa a misturar o que ela-mesma pensa e sente com o que a nova ela tinha planejado dizer. Ela não pensa em fugir da situação, mas fica tentando fugir de ela-mesma, e, quando percebe ser impossível naquele momento, ela deixa fluir e toma outro susto. Ela-mesma consegue resolver a situação, e de uma forma muito melhor do que o imaginável. Ela vai embora se sentindo estranhamente melhor. Tem um vazio. É como as novas meias-finas que ela usa, elas começam a arranhar e desfiar e, um dia, tem um buraco. E ninguém costura meias-finas. Aquele buraco vai ficar ali pra sempre. Vazio. Ou joga-se fora, ou usa-se assim mesmo.
Ela resolve que, mesmo assim, é melhor continuar com a sua nova vida e não tentar recuperar a velha. Jogar fora com o buraco. Comprar uma nova. Assim, ela passa o dia como havia passado os outros dias da sua vida nova. Ela deita na cama pra dormir e fica revirando de um lado para o outro. Os calmantes, que ela-mesma era contra tomar, parecem não funcionar nessa noite. Deviam ser os litros de café, que ela-mesma não estava acostumada a ingerir, ou os cigarros, que ela-mesma não fumava. Então vem a imagem da menina fixa em frente ao espelho da loja e, de repente, uma estrela cadente. Uma estrela cadente? EM SÃO PAULO!?!? Ela começa a pensar que, pra ter visto uma estrela cadente EM SÃO PAULO, ela estaria olhando o céu fixamente há, pelo menos, mais de meia-hora!
Desse jeito, ela teve que se convencer de que nunca conseguiria ser outra pessoa que não fosse ela-mesma. Não adiantava par de botas de merda nenhuma. Batom de merda de cor-choque nenhuma. E nem mini-saia EM PLENO INVERNO. Ela pensou que ela-mesma era um bom nome. Imagina…Elamesma. A filha, que ela-mesma tem pavor de pensar em ter, poderia receber esse nome. Ela percebeu que ela-mesma nunca ia poder sumir pra sempre. Porque ela-mesma não deixa ninguém, nem ela mesma. Então ela percebeu que teria que aprender a amar a ela-mesma de novo. Mas isso era, na verdade, muito fácil. Porque de uma coisa ela sabia: ela-mesma nunca deixa de amar.

E vai a meia-fina com buraco, assim mesmo. Afinal, se tem um vazio, é porque antes tinha alguma coisa. E o bom é pensar que você sente falta do que tinha ali. Uma meia-fina com buraco é só uma meia-fina com buraco. Ela vai ficando velha, e esticando…às vezes ela não aguenta mesmo, mas ela continua a ser uma meia-fina.

Essa foi a última coisa que ela pensou antes de virar para o lado, abraçar o edredon multi-colorido, olhar para céu uma última vez, e se perguntar…o que ia restar disso tudo amanhã de manhã?

 

02:02 a.m.
18/07/2008

 

“This is fact, not fiction. For the first time in years.”

Eu vim aqui, e vomitei tudo isso. Ninguém lê essa porcaria mesmo…

 

“É que por enquanto a metarmofose de mim em mim mesma não faz sentido. É uma metamorfose em que eu perco tudo o que tinha, e o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com seus planetas e baratas.” (Clarice Lispector)