Ela não sabe mais se não dorme porque fica pensando ou se fica pensando porque não dorme. Aquela imagem, daquela garota no espelho da loja, fica fixa na sua cabeça, assim como a garota na loja fica fixa diante do espelho. Dentro daquele par de botas, que ela viu de longe numa vitrine que ela-mesma jamais ousaria chegar perto, ela fica parada e pensando se aquilo complementaria o batom rosa-choque e a mini-saia-em-pleno-inverno que ela -mesma nunca usaria. Ela começa a andar pela loja desesperadamente e, enquanto a vendedora tenta manter a distância de um metro perseguindo-a pela loja e dizendo coisas que ela não está escutando, ela chega a conclusão de que poderia fugir de qualquer coisa, inclusive de ela-mesma, com aquele par de botas. Assim, ela fica vagando por aí (com o batom rosa-choque, a mini-saia-em-pleno-inverno e o par de botas) só pra checar se ela consegue realmente fugir de tudo o que ela quer deixar pra trás. Ela tenta novos hábitos, novos lugares, novas pessoas. E ela começa a achar que aquilo tudo realmente funciona, já que, desde que ela rejeitou seus quatro pares de All-Star, a calça jeans e a cara limpa, as novas pessoas que se aproximam dela são MUITO diferentes. Ela-mesma adorava os amigos nerds, intelectuais, artistas, revolucionários, mas as pessoas novas…ah, as pessoas novas ela não PRECISA gostar, porque as pessoas novas não se importam nenhum pouco com isso. “HA-HA-HA Que bobagem, querida!…Me passa o isqueiro, vai.” É só jogar conversa fora, tem coisa mais fácil? Nada de profundidade psicológica, análises divagantes ou algum tempo para questionar. Era só o isso o que ela precisava. Conversa-fora com gente que cheira bem (bem forte), um cigarro quando o assunto incomoda, e retocar o batom rosa-choque de vez em quando. Então, ela passa a maior parte do tempo assim, com esse par de botas. E quando ela o tira, a dor nas pernas é tanta que ela ainda se sente com ele. O que é bom, já que ela não quer lembrar de quem ela é sem aquele par de botas. Sem falar que… o que é uma dorzinha física pra uma Diva, não é mesmo?
O fato é que um dia ela tem que resolver o problema que era de ela-mesma, porque ela precisa disso pra seguir em frente com a nova vida. E quando ela chega lá, com a mini-saia-em-pleno-inverno-batom-rosa-choque-par-de-botas+cabelo-hidratado, e ela está determinada a agir de acordo com a sua nova vida, ela leva um susto. Diante daquilo que era parte de ela-mesma, quase metade de ela-mesma, ela não consegue ser NADA além de ela-mesma. Ela começa a misturar o que ela-mesma pensa e sente com o que a nova ela tinha planejado dizer. Ela não pensa em fugir da situação, mas fica tentando fugir de ela-mesma, e, quando percebe ser impossível naquele momento, ela deixa fluir e toma outro susto. Ela-mesma consegue resolver a situação, e de uma forma muito melhor do que o imaginável. Ela vai embora se sentindo estranhamente melhor. Tem um vazio. É como as novas meias-finas que ela usa, elas começam a arranhar e desfiar e, um dia, tem um buraco. E ninguém costura meias-finas. Aquele buraco vai ficar ali pra sempre. Vazio. Ou joga-se fora, ou usa-se assim mesmo.
Ela resolve que, mesmo assim, é melhor continuar com a sua nova vida e não tentar recuperar a velha. Jogar fora com o buraco. Comprar uma nova. Assim, ela passa o dia como havia passado os outros dias da sua vida nova. Ela deita na cama pra dormir e fica revirando de um lado para o outro. Os calmantes, que ela-mesma era contra tomar, parecem não funcionar nessa noite. Deviam ser os litros de café, que ela-mesma não estava acostumada a ingerir, ou os cigarros, que ela-mesma não fumava. Então vem a imagem da menina fixa em frente ao espelho da loja e, de repente, uma estrela cadente. Uma estrela cadente? EM SÃO PAULO!?!? Ela começa a pensar que, pra ter visto uma estrela cadente EM SÃO PAULO, ela estaria olhando o céu fixamente há, pelo menos, mais de meia-hora!
Desse jeito, ela teve que se convencer de que nunca conseguiria ser outra pessoa que não fosse ela-mesma. Não adiantava par de botas de merda nenhuma. Batom de merda de cor-choque nenhuma. E nem mini-saia EM PLENO INVERNO. Ela pensou que ela-mesma era um bom nome. Imagina…Elamesma. A filha, que ela-mesma tem pavor de pensar em ter, poderia receber esse nome. Ela percebeu que ela-mesma nunca ia poder sumir pra sempre. Porque ela-mesma não deixa ninguém, nem ela mesma. Então ela percebeu que teria que aprender a amar a ela-mesma de novo. Mas isso era, na verdade, muito fácil. Porque de uma coisa ela sabia: ela-mesma nunca deixa de amar.
E vai a meia-fina com buraco, assim mesmo. Afinal, se tem um vazio, é porque antes tinha alguma coisa. E o bom é pensar que você sente falta do que tinha ali. Uma meia-fina com buraco é só uma meia-fina com buraco. Ela vai ficando velha, e esticando…às vezes ela não aguenta mesmo, mas ela continua a ser uma meia-fina.
Essa foi a última coisa que ela pensou antes de virar para o lado, abraçar o edredon multi-colorido, olhar para céu uma última vez, e se perguntar…o que ia restar disso tudo amanhã de manhã?
02:02 a.m.
18/07/2008
“This is fact, not fiction. For the first time in years.”
Eu vim aqui, e vomitei tudo isso. Ninguém lê essa porcaria mesmo…
“É que por enquanto a metarmofose de mim em mim mesma não faz sentido. É uma metamorfose em que eu perco tudo o que tinha, e o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com seus planetas e baratas.” (Clarice Lispector)