I live
I love
I leave
 
Arthur passava a mão direita pelos fios de cabelo oleosos, e com a mão esquerda na cintura ele procurava a melhor posição de seu corpo para pensar, se é que existia uma. Ele olhava para aquelas portas, aquelas TRÊS portas, e tentava formar uma idéia clara na sua cabeça do que estava acontecendo. Seus pensamentos confusos o levavam para longe, mesmo com o esforço que ele fazia para estar ali naquele palco. “Azul, amarelo, vermelho…são cores primárias. Essas portas poderiam ser de cores secundárias, por que não?” O barulho abafado que a platéia fazia começava a ficar cada vez mais alto e nítido, e de repente ele se deparou com o apresentador em trajes coloridos e um chapéuzinho ridículo, parado na sua frente com o microfone na mão e um sorisso falso. “ARTHUR! Arthur, querido! Vamos lá, diga para o Brasil: O QUE VOCÊ QUER GANHAR ESSA NOITE?!”. Arthur permanecia em silêncio estático, olhando para o apresentador com os olhos grandes e assustados, ele continuava com a mão esquerda na cintura e uma gota de suor escorria de seu rosto. “Cadê a Marcia, hein?”, ele se perguntava em desespero. Já era estranhamente difícil para ele tomar qualquer decisão sem a Marcia. “ARTHUR!! Você está vendo na sua frente AGORA essas três portas, e você já sabe o que pode ter atrás de cada uma delas. Você pode abrir a porta com o monstro, ou a porta com uma bicicleta, OU VOCÊ PODE GANHAR UM CARRO E UMA TV DE PLASMA DE 50 POLEGADAS!!!!!!! Agora diga para o Brasil, ARTHUR, o que você que ganhar?!”. O apresentador dava tapinhas em seu ombro. “Hãnn…eu quero a bicicleta, eu acho.” Arthur procurava o celular em seu bolso. “AAH, É CLARO. Quem é que não quer ganhar um carro zerinho e uma TV DE PLASMA DE 50 POLEGADAS!? Você fez a escolha certa, amigo, agora… QUE PORTA VOCÊ VAI ESCOLHER: azul, vermelha ou amarela?!” O apresentador já se aproximava das portas, o que deixava Arthur bem desesperado. Era tão difícil escolher uma porta. Ainda mais ABRIR uma porta. “Alô? Marcia?! Marcia, cadê você?!”. “Oi Arthur…ah, então…”, ela sempre começava com esse ‘ah, então’, “eu não vou mais, eu resolvi ficar aqui na casa da Ju pra jantar…”. Arthur, na verdade, já estava esperando por isso. “E você nem ia ligar pra me avisar!? Marcia…vermelho, azul ou amarelo?”. “Azul! E vê se ganha esse carro!”. Ela sempre fazia isso. “Azul! Eu quero a porta azul…”. Uma música sinistra de suspense começou a tocar, e o apresentador começou a se aproximar mais das portas, dizendo umas coisas que Arthur não conseguia mais ouvir. Arthur agora passava as duas mãos pelo cabelo oleoso, a esquerda e a direita, e pretendia permanecer com elas lá até que a porta fosse aberta. Era ridícula a posição dele no palco. A porta vermelha foi aberta. Ele sabia que o apresentador ia abrir a porta com o monstro e depois ia perguntar se ele queria trocar de porta, e ele tinha ouvido em algum lugar que se trocasse de porta talvez tivesse mais chances, mas não conseguia lembrar disso agora. Ele ficou esperando o monstro sair, enquanto o apresentador gritava “corre, corre, CORRE, O MONTRO!”. Mas Arthur ficou parado, porque não tinha nenhum monstro. Um vaporzinho saía da porta, e um cheiro de mofo invadia o palco. Ele se aproximou da porta vermelha, aberta, e espiou lá dentro. Era escuro e havia um poço, e quando ele olhou para o fundo do poço ele viu um monte de tristeza e desespero. Ele voltou ao palco meio perturbado,e ouvia o apresentador dizer “você já se livrou da porta com o monstro, agora, ARTHUR!”, ele sempre gritava o nome dele, “você quer trocar de porta, ou quer ficar com a azul?!”. Arthur não conseguia pensar, ele não conseguia dedicir, mas ele sabia que aquele era o momento que ele teria que optar por alguma das portas, ele teria que abrir alguma das portas e seguir em frente com a sua vida. Ele ficou pensando o quanto ele queria a bicicleta, mas Marcia o mataria. “Eu quero trocar pela amarela”, ele se lembrou da dica. O apresentador foi se aproximando da porta azul, e Arthur voltou as mãos na cabeça e limpou o suor de sua testa. Música de suspense. A porta azul é aberta. Imediatamente uma luz enche o palco de uma maneira que faz Arthur cair para trás, quase ficando cego. O apresentador está dizendo alguma coisa e a platéia está eufórica, mas ele não consegue entender mais nada. Ele se levanta e tudo vai voltando ao normal, ele enxerga o apresentador perto da porta iluminada. “Essa era a porta com a bicicleta! Isso significa que você ganhou O CARRO E A TV DE PLASMA, ARTHUUUUUUR! Porque você escolheu a porta AMARELA!”. Arthur quis chorar nessa hora. Ele foi até a porta azul iluminada, e lá dentro ele não via a bicicleta. Na verdade ele não sabia direito o que ele via. Parecia o infinito. E ele sentiu uma sensação ótima perto daquela porta. Tinha música, e tinha imagens…as imagens mais bonitas, e tinha….tinha liberdade lá dentro. Mas tinha medo também. Ele começou a ficar confuso diante daquela porta. O apresentador o pegou pelo ombro e apontava o microfone para a sua cara, “O que você faz da vida, ARTHUR?!”. “Hãn… eu sou administrador, mas eu sempre qu…”. “Aaah, ÓTIMO! Esse carro e essa tv combinam com você, ARTHUR!!! Vai lá…vai ver o que você ganhou, ARTHUUUUUUUUUR!!”. Ele abriu a porta amarela, que não era muito amarela, na verdade. Quando ele chegou perto ele percebeu que era meio bege. Lá ele viu: uma casa legal, com psicina, churrasqueira, o carro zero, a tv de plasma de 50 polegadas, um cão labrador, o céu bonito, a grama verde, umas bóias coloridas, e a Marcia…a Marcia tomando sol na cadeira perto da psicina. Era tão seguro ali, ele se sentia tão bem. A mulher que ele amava, e todas aquelas coisas. Mas, de repente, uma sensação muito estranha percorreu todo o seu corpo e parecia que ele realmente sabia o que fazer naquela hora.
Ele pegou Marcia pelo braço e a puxou para o palco, de biquini e óleo bronzeador. Ela ficou envergonhada e gritando quando viu toda aquela platéia e tentou se esconder atrás do marido.

“O que você tá fazendo, Arthur?! Onde a gente tá?!”. O apresentador tentava entreguar-lhe as chaves do carro efusivamente, seguindo-o pelo palco, mas Arthur não dava mais atenção a ele. Arthur pegou o celular, as chaves do carro da mão do apresentador e atirou no poço escuro dentro da porta vermelha. Marcia deu um berro de angústia. “O que você tá fazendo, seu louco?! Aaah, me larga!”. Arthur não pensava em largá-la. Não pensava em largá-la nunca! Ele sabia pra onde queria ir, e sabia que queria Marcia ao seu lado. Ele foi puxando-a, quase arrastando-a, para a porta azul. Ela gritava e se debatia e ele a atirou lá dentro. Ela sumiu numa coisa que parecia um redemoinho no ar, e ele se atirou atrás dela. A porta azul se fechou. A porta vermelha se fechou. A porta amarela se fechou. E todas as portas foram retiradas do palco no intervalo comercial.

 

20/07/2008 – 13:13h

Um dia alguém vai achar isso aqui.