Pati comprou apatia (pagando em sonhos)
July 28, 2008
Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Pati foi lá e vendeu todos os sonhos. E como ela ainda não sabia o quanto eles valiam, ela vendeu cada ovelha por 40 reais, o infinito por oito reais, todos os morangos que ela colheu por 100 reais, o céu por cinco reais (porque era inverno e tinham poucas núvens), a caixinha azul (com a chave correspondente) por quatro reais, e toda a coleção de idéias criativas por mais 50 reais. No fim, ela cobrou 287 reais por tudo e o cara que usava o uniforme do mundo pagou com três notas de cem, além de uma dose de apatia que seria o suficiente para ela sobreviver, e disse que ela podia ficar com o troco se ela levasse um chiclete pra ele todos os dias. Ela achou aquilo bem digno, e ia ser aquilo todo o mês pelo resto do tempo que ela não sabia o quanto ia durar.
Pati passou a vestir o uniforme do mundo todos os dias, porque é regra. E, por causa da dose de apatia, ela não sentia falta dos sonhos e nem sentia falta de nada. É assim quando se é apático, você não sente falta nem de sentir falta, e isso é o que te conforta quando você não tem tempo de se emocionar com a vida.
“You try, but life is a game.”
E demorou um tempo até que Pati percebesse o que tinha acontecido com ela. Foi num dia de sol e céu-de-brigadeiro, com um pôr-do-sol laranja que lembrava algo que ela não lembrava, e ela chegou em casa mais cedo, porque passara mal enquanto fazia o que tinha que fazer. É que todo mundo passa mal quando a vida fica estranha. E eu acho que a mudança na rotina foi o motivo pelo qual ela deve ter parado pra pensar. Ela viu seu sapato jogado na sala com a sola virada pra cima e correu pra desvirar (porque diziam que isso dá azar). Foi aí que ela viu que havia uma borboleta maravilhosamente-morta-esmagada na sola de seu sapato. As cores de suas asas se misturavam, formando um desenho bonito e brilhante, e aquilo foi demais para a sua recém-comprada apatia. Ela se comoveu, mesmo tentando se controlar pensando que era só uma borboleta que ela tinha matado. Ela tinha matado! Mas era uma morte linda, colorida e brilhante. E Pati era uma assassina sorridente. Sorrindo, porque ela não tinha escolha.
Pati voltou para falar com o cara que usava o uniforme do mundo, e disse a ele que não queria mais os trezentos reais por mês, e que queria seus sonhos de volta. Ele se recusou a devolver, alegando que ela tinha vendido e “quando você vende, já era!”. Foi então que ela mostrou a borboleta esmagada pra ele, e a ofereceu em troca de todos os sonhos vendidos. O cara do uniforme olhou para aquele monte de cores misturadas e brilhantes e acho que ele meio que se perdeu ali, porque ele aceitou devolver todos os sonhos da Pati por aquela criatura tão naturalmente-morta-colorida. Pati foi embora dali pra nunca mais voltar, deixando a apatia e o uniforme. Ela foi atrás da vida e encontrou um mundo, mas esse mundo era muito grande e ela se perdeu. Pelo menos ela nunca mais vendeu seus sonhos e um dia ela percebeu que, para se achar, ela TINHA que ter se perdido. Já o cara que usava o uniforme do mundo, ele nunca mais soltou a borboleta morta, e nunca mais vestiu aquilo. E um dia, ele mascou vinte chicletes de uma vez, fazendo uma bola tão grande (tão grande), que ele saiu voando pela janela e começou a fazer parte do céu que fazia parte dos sonhos da Pati. Assim, a borboleta morta arranjou um jeito de voltar a voar no céu. Todo dia Pati olhava para o céu, e sempre tinha a sensação de que tava tudo ali, mesmo que ela não encontrasse nada. Sem falar que todo dia tinha pôr-do-sol.
E era assim: o que quiser que tenha, tinha. Tinha arrebol? Tinha. Rouxinol? Tinha. Luar do sertão, palmeira imperial, girassol, tinha. Também tinha temporal, barranco, às vezes lamaçal, o diabo. Depois bananeira, até cachoeira, mutuca, boto, urubu, horizonte, pedra, pau, trigo, joio, cactus, raios, estrela cadente, incandescências. Enfim.
- Ôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôô!!!!!!!!!!!
[hoje é dia vinteoito de julho de doismileoito, e são onze-eoito da noite]
Tchau