“Que inverno de merda, hein?”. Tá muito quente. Não tem vento. O ar ficou tanto tempo parado que coagulou. Coágulos de ar. E de repente eu não respirava mais. Assistia ao mundo como se não fizesse parte dele. Eu via as pessoas e esperava pelo vento, esperava que as pessoas trouxessem o vento. Não tinha ar. Tudo coagulou de tanto tempo parado. Coagulou o tempo, que parou. E eu queria PODER amar. Eu fiquei esperando, mas não fazia diferença, porque o tempo estava parado. As pessoas agiam como se o tempo ainda corresse, como se houvesse ar não-coagulado. Comecei a desconfiar das pessoas. Comecei a achar que tudo aquilo fosse arranjado. Tudo arranjado para me desesperar. Alguém veio falar comigo e eu não tive coragem de contar. Eu disse que estava tudo bem. Eu menti. Eu disse que havia vento e nem mencionei a coagulação do ar. Eu falei que o tempo corria e até que o tempo cura tudo. Eu não consegui contar. A pessoa pegou na minha mão, porque ela conseguia ver nos meus olhos, “que mão gelada!”. Tava tão quente. Eu não tive coragem de contar que eu não respirava mais. A pessoa me ofereceu um sorvete, porque ela conseguia ver nos meus olhos. EU não conseguia olhar nos olhos dela, por causa da cor, que me lembrava de alguma coisa que ficou perdida no tempo que parou. “Sorvete? No frio?!”, “não tá frio!”, a pessoa não sabia mais que era inverno. “E você adora sorvete!”, ela sorriu. Eu pensei na distância a qual se encontrava o sorvete, não fazia diferença. “É meio longe…”, disse a pessoa. Pensei no tempo e espaço, e cheguei à conclusão de que, com o tempo parado, não havia distância. Com o tempo parado, tanto faz se eu vou buscar sorvete na esquina ou no Japão. As coisas só ficavam longe, porque se levava tempo para chegar até elas. “Não tem problema, eu tenho tempo…”, menti. Achei que a pessoa fosse começar a perceber que o tempo havia parado, mas não. Imaginei que a pessoa também estaria disfarçando, sem coragem de me contar que já sabia. Desconfiei das pessoas. Comocei a achar que todo mundo sabia e estava disfarçando. Fiquei nervosa, estressada. Se o tempo estivesse correndo, quanto tempo já teria passado? Mandei a pessoa ir embora, porque não sabia mais nada. E ela foi, acredita? Porque é isso o que as pessoas fazem, elas vão embora quando a gente pede. Eu só queria PODER amar, mas não podia. Nem respirava mais, afinal. Lembrei que no avião eles dizem que o melhor é você colocar a sua própria máscara de oxigênio antes de ajudar a pessoa ao seu lado. Não tinha mais tempo também… não fazia diferença. Olhei para cima, pra ver se não tinha caído nenhuma máscara de oxigênio sobre a minha cabeça. Não tinha nada. Reparei que o céu estava meio pálido

 

Texto escrito no dia UM de agosto (eu não gosto de dizer ’dia primeiro’).