Mais uma homenagem às pessoas que vão embora.

É a primeira vez que hoje não faz sentido.
E, na verdade, não é. Porque é diferente quando você acha que faz sentido, mas não faz. E quando não faz sentido de verdade, você percebe que nunca fez. Eu não tenho escrito muito, porque eu acho que fiquei pensando nisso todos esses dias.

Ela passou vários dias bloqueando um monte de pensamentos, assim como bloqueou um monte de lembranças de muito tempo atrás. E escutou sua mãe descrever aquela cena, que deve ter sido a cena mais triste da sua vida, como se fosse a vida de outra pessoa. Ela não lembrava. Nem vagamente. E ela ficou triste por aquela pessoa da cena triste. Mas aquilo era distante e impessoal. E o efeito que causou nela foi frio. Assim como tinha que ser.
Porque não dava pra sentir falta de algo que ela nunca teve.

Eu pintei um quadro e aquele quadro ficou um quadro.
E era só um quadro.
Não queria que parecesse uma foto.
Eu queria mesmo que fosse só um quadro.
Eu coloquei uma moldura
que era pra aquilo não sair pelas bordas.
Que era pra não virar parede.
Eu tive medo que achassem que era um espelho.
E ficassem parados em frente, olhando.
Eu queria que fosse um quadro quadrado.
Eu queria que fosse pura art Déco.
Daquelas que a pessoa olha uma vez e pensa
“que mau gosto”
e não olha nunca mais.
Eu não quis olhar nunca mais
para o quadro que eu fiz.
Eu pendurei
só porque eu não podia ignorá-lo
ou guardá-lo
porque guardar parecia pior.
Eu queria que ele estivesse ali
não estando.
Eu pintei um quadro borrado
porque-eu-não-queria-que-parecesse-uma-foto

E ficou um quadro.

 

[Dia dos pais de 2008 - 10:10a.m.]

5 Responses to “Todos os motivos pelos quais as pessoas vão embora 2 – Eu não sei”

  1. Diego Says:

    É sério pô, você escreve posts muitíssimo melhores que os meus… Esse aqui, por exemplo!

  2. Marilia Bebe Says:

    putz, eu realmente adorei a parte do quadro!
    adorei!
    adorei!

  3. Marilia Bebe Says:

    é daqueles textos que eu gostaria q tivessem saído de mim

  4. Alessandro Says:

    daqueles que o baleiro pinta em sua música bienal

    “Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio
    Faço um quadro com moléculas de hidrogênio
    Fios de pentelho de um velho armênio
    Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta…”

    e

    “Misturarei anáguas de viúva
    Com tampinhas de pepsi e fanta uva
    Um penico com água da última chuva,
    Ampolas de injeção de penicilina”

    eu gosto!

    aliás, gostei muito do que vc escreveu


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