Eu acordei com a sensação de que eu tinha que dizer, mas não sabia como. Eu não sabia se eu desenhava ou escrevia. Era aquela coisa sufocante de ter que chegar à superfície todos os dias, com medo de ficar sem ar. Eu pensei em escrever com lápis aquarela, pra depois poder chorar em cima e formar um desenho. Aí eu teria feito as duas coisas e não precisaria escolher. Mas não era isso, era mais o cansaço físico e mental de ter que chegar todos os dias à superfície. Como um peixe beta que vai respirar de vez em quando, porque o dono estúpido dele não coloca um oxigenador de água no aquário. Eu não sei nada sobre peixes beta. Mas eu já tive um e ele morreu afogado, porque ele ficou preso na planta artificial que era só um enfeite e não conseguiu chegar a superfície para respirar. Eu nem sei bem se foi isso mesmo. Eu nem sei bem se desço ou se subo pra chegar à superfície. É que eu moro bem no meio da coisa toda, sabe? Eu demoro sete minutos para chegar à superfície. Eu vou subindo, subindo, e quando eu tô atrasada isso me cansa muito. São quatro quadras da av. Paulista. São sete minutos. É todo dia. Às vezes eu levo só cinco minutos, e são esses dias que me fazem pensar como essa coisa de chegar na superfície pode ser cansativa. Mas é necessário estar lá. Respirar e tals. Mas outro dia eu desci um pouco e isso me fez pensar. Era um domingo e tinha um evento de gente chique naquela rua chique. Eu nem sei bem o que eu tava fazendo lá, porque eu tinha acabado de chegar de um dia bem cansativo em que eu fiquei em baixo do Sol por muito tempo. E isso é bem um desastre pra mim, que sou quase albina. E quando eu deveria estar descansando da minha insolação, eu estava lá naquela rua cheia de gente chique e com música alta, procurando minha mãe que tinha sumido da minha casa. E eu achei que eu não podia ficar sozinha, mas eu devia. Demorou um pouco pra eu entender o que tava acontecendo, mas um segurança de alguma loja quase me explicou tudo quando ele disse: “mocinha, por favor, não pise no tapete de grama sintética”. E eu olhei pra baixo e tinha um tapete verde que nem era grama sintética, e sim uma borrachinha verde que imitava grama. Olhei para os lados e havia pessoas com calças de lantejoulas tomando chandom. Fotografos. Tive até que desviar pra não sair numa foto com a Giovana Antoneli (não sei como escreve esse nome). Tava todo mundo pisando naquele tapetinho tosco, e eu fiquei sem entender porquê eu não podia. Devia ser meu all star que um dia já foi branco e agora tá desfiando um pouco. A música era extremamente alta, e as pessoas não conversavam, só sorriam umas às outras. Eu lembrei de uma frase que uma pessoa tinha me dito nesse mesmo dia que achava “que essa coisa de conversar era meio subversiva”. A música devia ser alta por isso. Quando eu finalmente encontrei minha mãe e minha tia, eu quase gritei “o que vocês tão fazendo aquiiiiii!?”, mas minha mãe não entendeu o que eu perguntei e respondeu que “não dava pra pegar chandom de graça, porque só pode pegar quem tem essa pulseirinha preta! Mas eu peguei um cata-vento pra você, filha!”. Além de champanhe (também não sei escrever isso, tem algum g no meio, não tem?), a chandom tava distribuindo cata-vento também. Vai saber… e a gente resolveu ir embora e comer em casa mesmo, porque, na verdade, ninguém sabia o que tava fazendo ali, nem a gente. No caminho de volta eu fiquei pensando que ali era muito mais fácil de se viver, e que talvez eu poderia me converter àquilo tudo um dia. Aquilo sim que era superfície. Lá é que podia se respirar um pouco. Ter um tempo sem pensar em nada. Sem ter que conversar. Era a superfície de tudo! Dos meus pensamentos, idéias, vontades. E eu fiquei pensando que todo esse tempo em que eu fiquei me cansando, subindo aqueles sete minutos, achando que eu tava indo à superfície… na verdade, não. Eu tava era me afundando cada vez mais no abismo que é o mundo, quando a gente enxerga não só o que a gente quer. Devia ser por isso que sempre que eu chegava lá em cima eu me encontrava mais sem ar do que lá em baixo. Mais cansada. Era lá em baixo que eu ia fugir de tudo… e por um momento eu pensei que o morro dos jardins estivesse ao contrário. Só que não dá! Não dá pra acreditar que isso possa dar certo. E não dá. Porque, por mais incrível que pareça, ainda parece mais legal subir correndo o morro e chegar lá de 5 à 7 minutos, bem sem ar…pra poder descansar no vão do masp, e ouvir meu amigo que mora lá, no vão do masp, dizer que ele mora “num hotel de um milhão de estrelas”. Aí você olha para o céu e nem tem um milhão de estrelas, mas é legal mesmo assim, e elas estão lá. Eu nem sei mais o que estou dizendo. Eu só prometi pra alguém que eu ia escrever um texto sobre chegar à superfície, como se eu morasse no fundo do mar. E eu me confundi um pouco com os sentidos disso tudo.

No meio do morro.
“É aqui que eu moro………é meio vázio, né………é que eu não tenho muita coisa mesmo…”

 

[22/08/08 - 11:11 a.m]