Semana que vem
February 11, 2010
Um judeu anda apressado, nervoso, com passos duros e decididos. Olha para o chão, cenho franzido, uma espécie de bico. Não é possível ver com certeza se é um bico, pois que tem uma barba cheia, que, saindo do queixo, tem uma ponta comprida. Como eu sei que ele é um judeu? Ele tem um daqueles chapeuzinhos redondinhos no topo da cabeça. Parecia que andava olhando para o chão para não deixar cair o chapeuzinho. Enfim. Pára em frente a um carro com tanta veemência, que eu paro também de andar. Puxa, a movimentos rápidos e precisos, um papel que alguém deve ter deixado no vidro do carro. Alguma propaganda. Vira-se de costas para o carro, olhando o papel com raiva. Estático por alguns segundos. Mantendo o cenho acarrancado. Tem um óculos também. Pequeno. Com um movimento dançante do braço que segura o papel, ele guarda o papel no bolso ao mesmo tempo em que abre a porta do carro em uma fração de segundo. Rápido mesmo. Quase um rápido de raiva. Volto a andar. Ele nem me percebe.
-Alô? (só pra garantir que eu estou lá)
-Alô. (É, eu tô aqui…)
Acho que, nesse momento, dá-se um alívio.
-E aí? (E aí o que?)
- E aí o que?!
- E aí a sua faxineira? (Eu já sei)
Hoje é terça? Já? De novo? Não, não é!
- Semana que vem, eu acho (Já sabe!!)
- Acha?
- Semana que vem (¬¬)
E aí a explicação da semana que vem, que já é informação demais.
Nesse momento alguma coisa de fora quebra a minha janela, um buraco enorme, cheio de pontas de vidro, espaço suficiente para passar alguma coisa que deve estar no meu quarto neste momento, mas não se vê em meio aos estilhaços. Fico procurando um chinelo, pra não me cortar, quando vejo: uma espécie de bola feita de durex com moedas de cinquenta centavos dentro. Foi isso que quebrou minha janela? Até que achei bonito. Sinto frio. O cata-vento do meu quarto gira sem parar, por conta do fluxo de vento que passa pelo buraco. E faz um barulho estranho, que parece uma música. Minha porta bate. O susto faz com que eu perca a atenção nos cacos de vidro. Acabo de pisar em um. Estou presa aqui, penso. Mas está sangrando um pouco. Só na semana que vem minha faxineira vem. Fico deitada na cama. Passa um dia. Alguma coisa, que vem pelo buraco feito na janela, cai no chão do meu quarto. Uma mini-piñata? Uma ovelhinha feita de papel com uns doces dentro. Mais ou menos do tamanho dos meus dois punhos fechados juntos. Olhei para fora através do buraco e só vi alguém que corria. Desapareceu muito rápido. Não acho justo quebrarem a minha janela e ficarem jogando coisas aqui dentro. Não acho justo ficarem ansiosos pela chegada da faxineira.
Minha mãe me chama do outro lado da porta que bateu com o vento. Não ouço direito o que ela diz, por causa do som do vento que passa pelo buraco.
Não tendo muito o que fazer no espaço do meu quarto, penso no judeu. Porque ele é nervoso? Ninguém nem quebrou a janela do carro dele, só colocaram um papelzinho. Acordei no outro dia e vi uma sombra que balançava, projetada no armário do meu quarto. Olhei para o buraco na janela e ele estava menor. Tinha um papelzinho publicitário fincado em uma das pontas de vidro estilhaçado, balançando com o vento. Tento agir como o judeu. Finjo que estou super nervosa, faço tudo rápido. Abro a janela. Rápido. Quase rápido de raiva. O vento vem ainda com mais força, fazendo com que eu caia para trás, em cima dos cacos de vidro. Não adianta gritarem mais, o barulho é ainda mais alto. Abro a porta e a corrente de ar me leva até a sala. Esqueci que meu passarinho estava fora da gaiola, entro em pânico. Mas a porta do meu quarto bate de novo antes que ele possa chegar até lá. Que bom. Que bom ter vento. Mas está sangrando um pouco. Será que já estou na semana que vem? Não tem ninguém em casa. Espero alguns dias para abrir o meu quarto de novo. Quando abro, vejo alguns presentinhos que vieram pela minha janela, agora aberta, jogados no chão. Um teclado de computador, uma blusa de frio com capuz, uma capa-de-chuva-também-com-capuz e um pedaço de capa de caderno. Sem falar no alagamento que se deu, por conta das chuvas. Na capa do caderno, meio úmida, lê-se uma mensagem quase borrada: “Desculpa ter quebrado a sua janela. Na verdade, eu não queria”. Sinto frio de novo, minhas mãos estão frias. Meus pés estão molhados. Penso no judeu, nos arranhões que eu fiz quando caí nos cacos de vidro. Estão cicatrizando. Já até tem uma casquinha que coça de vez em quando. Agacho e c0loco a mão na água. Levanto a mão. Os pingos que caem na água formam pequenas ondas circulares, que se sucedem. Não consigo pensar com tanto vento. Coloco a blusa de frio com capuz e como se a vida voltasse a ser morna e confortável …
Eu não desculpo.
February 17, 2010 at 2:01 pm
eu leio os posts do seu blog, só pra constar.
mesmo depois do jejum de, sei lá, 6 meses.
=)