Primeiridade

August 18, 2009

Quando antes fosse. É que quando se percebe já não se é. E quando não se é, aquilo é (de algum jeito). De algum jeito mais distante.

Eu não era eu, porque eu não era nada. Eram só sensações. Sentia aquilo, vivia aquilo sem saber o que era, ou o porquê, ou o como, ou o onde, ou o por quem. E eu não precisava me perguntar nada disso, porque era aquilo em absoluto. Eu era aquilo. Eu era o amor, o próprio, o absoluto, o infinito, e só. O nada. Transbordando.

Mas, assim que o meu corpo pediu para que alguma daquelas perguntas fossem respondidas, eu percebi. E quando eu percebi, eu já não era mais. Aquilo estava ali, fora de mim, palpável, existente, pedindo uma ação, uma reação, uma consideração. E quando você precisa pegar, pensar, considerar…isso abre fendas. E o que era tão puro, aquilo que durou talvez milésimos de segundos… eu não sei.

E isso não quer dizer que o que resta não é de verdade. O que resta é o eco racional daquilo que era só sensação. O problema são as fendas da racionalidade, é isso. Eu sei que é. Eu quero que seja. Eu quero ser de novo. O primeiro, mais puro, mais original. O acaso. Quanto antes fosse.

É isso o que eu sinto, às vezes. Mas eu não consigo tocar.

Não responda perguntas

Não faça perguntas

Não fale com estranhos

ATO DE NÃO SE SENTIR BEM

Eu estava com medo de ficar no quarto vazio
e eu achava bonita
a mariposa morta no hall
sempre
que eu ia embora
e uma vez
quando eu voltei.

Mas eu tenho muito medo
da mariposa
viva.
E eu acho que é bonita
a imagem do quarto vazio.

A tristeza bonita das imagens
e o medo de participar delas…

Talvez seja tudo relativo,
menos o ato de não se sentir bem.

Eu quis dizer.
Era bonito.
Sobre amor, quarto vazio, saudade, e mariposa morta.
Mas eu não consegui…
no ato de não se sentir bem
as mesmas imagens bonitas
queriam dizer outras coisas.
Talvez eu não quisesse ouvir…

E, de repente,
recolheram a mariposa morta do hall
com aspirador de pó.
Eu ouvi.

Eu acordei com a sensação de que eu tinha que dizer, mas não sabia como. Eu não sabia se eu desenhava ou escrevia. Era aquela coisa sufocante de ter que chegar à superfície todos os dias, com medo de ficar sem ar. Eu pensei em escrever com lápis aquarela, pra depois poder chorar em cima e formar um desenho. Aí eu teria feito as duas coisas e não precisaria escolher. Mas não era isso, era mais o cansaço físico e mental de ter que chegar todos os dias à superfície. Como um peixe beta que vai respirar de vez em quando, porque o dono estúpido dele não coloca um oxigenador de água no aquário. Eu não sei nada sobre peixes beta. Mas eu já tive um e ele morreu afogado, porque ele ficou preso na planta artificial que era só um enfeite e não conseguiu chegar a superfície para respirar. Eu nem sei bem se foi isso mesmo. Eu nem sei bem se desço ou se subo pra chegar à superfície. É que eu moro bem no meio da coisa toda, sabe? Eu demoro sete minutos para chegar à superfície. Eu vou subindo, subindo, e quando eu tô atrasada isso me cansa muito. São quatro quadras da av. Paulista. São sete minutos. É todo dia. Às vezes eu levo só cinco minutos, e são esses dias que me fazem pensar como essa coisa de chegar na superfície pode ser cansativa. Mas é necessário estar lá. Respirar e tals. Mas outro dia eu desci um pouco e isso me fez pensar. Era um domingo e tinha um evento de gente chique naquela rua chique. Eu nem sei bem o que eu tava fazendo lá, porque eu tinha acabado de chegar de um dia bem cansativo em que eu fiquei em baixo do Sol por muito tempo. E isso é bem um desastre pra mim, que sou quase albina. E quando eu deveria estar descansando da minha insolação, eu estava lá naquela rua cheia de gente chique e com música alta, procurando minha mãe que tinha sumido da minha casa. E eu achei que eu não podia ficar sozinha, mas eu devia. Demorou um pouco pra eu entender o que tava acontecendo, mas um segurança de alguma loja quase me explicou tudo quando ele disse: “mocinha, por favor, não pise no tapete de grama sintética”. E eu olhei pra baixo e tinha um tapete verde que nem era grama sintética, e sim uma borrachinha verde que imitava grama. Olhei para os lados e havia pessoas com calças de lantejoulas tomando chandom. Fotografos. Tive até que desviar pra não sair numa foto com a Giovana Antoneli (não sei como escreve esse nome). Tava todo mundo pisando naquele tapetinho tosco, e eu fiquei sem entender porquê eu não podia. Devia ser meu all star que um dia já foi branco e agora tá desfiando um pouco. A música era extremamente alta, e as pessoas não conversavam, só sorriam umas às outras. Eu lembrei de uma frase que uma pessoa tinha me dito nesse mesmo dia que achava “que essa coisa de conversar era meio subversiva”. A música devia ser alta por isso. Quando eu finalmente encontrei minha mãe e minha tia, eu quase gritei “o que vocês tão fazendo aquiiiiii!?”, mas minha mãe não entendeu o que eu perguntei e respondeu que “não dava pra pegar chandom de graça, porque só pode pegar quem tem essa pulseirinha preta! Mas eu peguei um cata-vento pra você, filha!”. Além de champanhe (também não sei escrever isso, tem algum g no meio, não tem?), a chandom tava distribuindo cata-vento também. Vai saber… e a gente resolveu ir embora e comer em casa mesmo, porque, na verdade, ninguém sabia o que tava fazendo ali, nem a gente. No caminho de volta eu fiquei pensando que ali era muito mais fácil de se viver, e que talvez eu poderia me converter àquilo tudo um dia. Aquilo sim que era superfície. Lá é que podia se respirar um pouco. Ter um tempo sem pensar em nada. Sem ter que conversar. Era a superfície de tudo! Dos meus pensamentos, idéias, vontades. E eu fiquei pensando que todo esse tempo em que eu fiquei me cansando, subindo aqueles sete minutos, achando que eu tava indo à superfície… na verdade, não. Eu tava era me afundando cada vez mais no abismo que é o mundo, quando a gente enxerga não só o que a gente quer. Devia ser por isso que sempre que eu chegava lá em cima eu me encontrava mais sem ar do que lá em baixo. Mais cansada. Era lá em baixo que eu ia fugir de tudo… e por um momento eu pensei que o morro dos jardins estivesse ao contrário. Só que não dá! Não dá pra acreditar que isso possa dar certo. E não dá. Porque, por mais incrível que pareça, ainda parece mais legal subir correndo o morro e chegar lá de 5 à 7 minutos, bem sem ar…pra poder descansar no vão do masp, e ouvir meu amigo que mora lá, no vão do masp, dizer que ele mora “num hotel de um milhão de estrelas”. Aí você olha para o céu e nem tem um milhão de estrelas, mas é legal mesmo assim, e elas estão lá. Eu nem sei mais o que estou dizendo. Eu só prometi pra alguém que eu ia escrever um texto sobre chegar à superfície, como se eu morasse no fundo do mar. E eu me confundi um pouco com os sentidos disso tudo.

No meio do morro.
“É aqui que eu moro………é meio vázio, né………é que eu não tenho muita coisa mesmo…”

 

[22/08/08 - 11:11 a.m]

Mais uma homenagem às pessoas que vão embora.

É a primeira vez que hoje não faz sentido.
E, na verdade, não é. Porque é diferente quando você acha que faz sentido, mas não faz. E quando não faz sentido de verdade, você percebe que nunca fez. Eu não tenho escrito muito, porque eu acho que fiquei pensando nisso todos esses dias.

Ela passou vários dias bloqueando um monte de pensamentos, assim como bloqueou um monte de lembranças de muito tempo atrás. E escutou sua mãe descrever aquela cena, que deve ter sido a cena mais triste da sua vida, como se fosse a vida de outra pessoa. Ela não lembrava. Nem vagamente. E ela ficou triste por aquela pessoa da cena triste. Mas aquilo era distante e impessoal. E o efeito que causou nela foi frio. Assim como tinha que ser.
Porque não dava pra sentir falta de algo que ela nunca teve.

Eu pintei um quadro e aquele quadro ficou um quadro.
E era só um quadro.
Não queria que parecesse uma foto.
Eu queria mesmo que fosse só um quadro.
Eu coloquei uma moldura
que era pra aquilo não sair pelas bordas.
Que era pra não virar parede.
Eu tive medo que achassem que era um espelho.
E ficassem parados em frente, olhando.
Eu queria que fosse um quadro quadrado.
Eu queria que fosse pura art Déco.
Daquelas que a pessoa olha uma vez e pensa
“que mau gosto”
e não olha nunca mais.
Eu não quis olhar nunca mais
para o quadro que eu fiz.
Eu pendurei
só porque eu não podia ignorá-lo
ou guardá-lo
porque guardar parecia pior.
Eu queria que ele estivesse ali
não estando.
Eu pintei um quadro borrado
porque-eu-não-queria-que-parecesse-uma-foto

E ficou um quadro.

 

[Dia dos pais de 2008 - 10:10a.m.]

“Que inverno de merda, hein?”. Tá muito quente. Não tem vento. O ar ficou tanto tempo parado que coagulou. Coágulos de ar. E de repente eu não respirava mais. Assistia ao mundo como se não fizesse parte dele. Eu via as pessoas e esperava pelo vento, esperava que as pessoas trouxessem o vento. Não tinha ar. Tudo coagulou de tanto tempo parado. Coagulou o tempo, que parou. E eu queria PODER amar. Eu fiquei esperando, mas não fazia diferença, porque o tempo estava parado. As pessoas agiam como se o tempo ainda corresse, como se houvesse ar não-coagulado. Comecei a desconfiar das pessoas. Comecei a achar que tudo aquilo fosse arranjado. Tudo arranjado para me desesperar. Alguém veio falar comigo e eu não tive coragem de contar. Eu disse que estava tudo bem. Eu menti. Eu disse que havia vento e nem mencionei a coagulação do ar. Eu falei que o tempo corria e até que o tempo cura tudo. Eu não consegui contar. A pessoa pegou na minha mão, porque ela conseguia ver nos meus olhos, “que mão gelada!”. Tava tão quente. Eu não tive coragem de contar que eu não respirava mais. A pessoa me ofereceu um sorvete, porque ela conseguia ver nos meus olhos. EU não conseguia olhar nos olhos dela, por causa da cor, que me lembrava de alguma coisa que ficou perdida no tempo que parou. “Sorvete? No frio?!”, “não tá frio!”, a pessoa não sabia mais que era inverno. “E você adora sorvete!”, ela sorriu. Eu pensei na distância a qual se encontrava o sorvete, não fazia diferença. “É meio longe…”, disse a pessoa. Pensei no tempo e espaço, e cheguei à conclusão de que, com o tempo parado, não havia distância. Com o tempo parado, tanto faz se eu vou buscar sorvete na esquina ou no Japão. As coisas só ficavam longe, porque se levava tempo para chegar até elas. “Não tem problema, eu tenho tempo…”, menti. Achei que a pessoa fosse começar a perceber que o tempo havia parado, mas não. Imaginei que a pessoa também estaria disfarçando, sem coragem de me contar que já sabia. Desconfiei das pessoas. Comocei a achar que todo mundo sabia e estava disfarçando. Fiquei nervosa, estressada. Se o tempo estivesse correndo, quanto tempo já teria passado? Mandei a pessoa ir embora, porque não sabia mais nada. E ela foi, acredita? Porque é isso o que as pessoas fazem, elas vão embora quando a gente pede. Eu só queria PODER amar, mas não podia. Nem respirava mais, afinal. Lembrei que no avião eles dizem que o melhor é você colocar a sua própria máscara de oxigênio antes de ajudar a pessoa ao seu lado. Não tinha mais tempo também… não fazia diferença. Olhei para cima, pra ver se não tinha caído nenhuma máscara de oxigênio sobre a minha cabeça. Não tinha nada. Reparei que o céu estava meio pálido

 

Texto escrito no dia UM de agosto (eu não gosto de dizer ’dia primeiro’). 

Conversa entre alguém que não consegue concluir raciocínios e alguém que não consegue raciocinar conclusões.

30/07/2008 00:33:01 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
hahahaha, ta beem
um pouco antes do lado de dentro

30/07/2008 00:33:12 Fer. diz:
um pouco antes do lado de fora.
30/07/2008 00:33:26 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
han…
eu tô confusa… não me confunda ainda mais
30/07/2008 00:33:47 Fer. diz:
hahahahaha
não se confunda
uma frase que uma anciã da minha família sempre falava pras minhas tias: “as nuvens sempre sabem pra onde vão”
30/07/2008 00:35:04 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
gostei da frase
queria ser uma nuvem
30/07/2008 00:36:27 Fer. diz:
deve ser gostoso ser nuvem
30/07/2008 00:36:40 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
é….. =(
30/07/2008 00:36:44 Fer. diz:
menos quando os aviões as cortam. ou quando está chegando o temporal.
30/07/2008 00:37:01 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
elas choram..
elas foram embora, nunca mais vi nuvens
30/07/2008 00:37:21 Fer. diz:
elas choram elas mesmas
30/07/2008 00:37:27 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
todo o dia é céu-de-brigadeiro
pois é….eu queria chorar eu mesma, pra não restar mais nada (às vezes)
tipo agora
30/07/2008 00:38:34 Fer. diz:
agora você devia querer ser uma estrela. as estrelas sempre são ótimas imagens.
30/07/2008 00:39:01 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5
não….eu não quero brilhar, nem quero estar lá mesmo não estando
30/07/2008 00:39:12 Fer. diz:
ou o próprio céu. você é mais estrela que nuvem, mas é mais céu que estrela.
porque a nuvem acaba e a estrela também. o céu muda mas está sempre lá, mari
30/07/2008 00:39:34 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
eu quero ser nuvem!!! agora eu só quero ser nuvem
30/07/2008 00:40:22 Fer. diz:
é… elas sempre sabem pra onde vão. =)
30/07/2008 00:40:30 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
é…

(…)

30/07/2008 00:53:53 Fer. diz:
porque você é uma nuvem… e elas só flutuam por aí, se colorem com o passar do dia, deslizam tranquilas à noite… se contrastam com o azul do brigadeiro, com o negro noturno… pra elas não faz diferença se é o azul do dia ou da noite, ou se é um pôr-do-sol, transição. elas se carregam das cores e pairam no ar pra serem admiradas e admirar o mundo. as nuvens são macias porque se colocam no lugar da terra, porque não querem ser aquilo sólido e agressivo ao toque… são aquilo, mesmo que à beira da tempestade são nuvens, são macias, são vivas, são mutáveis, são nuvens! =)
30/07/2008 00:54:40 (NÃO TÔ) Mari 2+2=5 diz:
=(
eu vou chorar

 

[31/07/2008 - 00h33min]

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