Tem areia nos meus olhos. Olhos de praia.
Mar salgado. Mar amor. Areia eu. Meus olhos
ardem com a luz laranja do pôr-do-sol de inverno
na praia. Eu não durmo. Eu não durmo. Meus olhos
ardem, vermelhos, com insolação. Eu esfrego, sai
uma água cinza…salgada. Mar maquiagem. Mar
maquilado. Areia do meu lado. Do meu fardo.
Eu não durmo. Acho que é o tempo seco,
que meus olhos ficam colados. Aquele
líquido que lubrifica minha retina
evapora…é o tempo seco. Arde.
Eu não durmo. Não tem mais
lágrimas. É o tempo seco.
Todo o dia de manhã, o
nascer-do-sol não tem
a cor do pôr-do-sol. Eu
vejo o sol nascer, com os
olhos caídos. Eu tenho sono.
Eu tenho sonho. Tem concreto
nos meus olhos. É áspero. Meus
olhos ardem. Eu não durmo… Eu
esfrego tudo, sai uma poeira. Doente.
Eu devo estar doente. Tem concreto nos
meus olhos, mas eu vejo tudo abstrato.
Batman mágico… Céu que escorre nos
prédios. Vinho com leite condensado.
Eu não durmo… Eu não durmo… Eu
acordo como se não tivesse dormido.
Talvez eu nem tenha dormido. Tô
cansada. Talvez eu nem tenha
acordado. Talvez eu fique
dormindo o dia inteiro.
Dormir é não dormir.
Quando é acordar? Eu
nem quero saber. Eu não
durmo. Meus olhos ardem!
Minha testa pesa. Eu tenho
que dirigir. Eu tenho que digerir.
Tá difícil digerir. Dirigir também.
Indigestão. Talvez eu vá até a praia.
Indireção. Eu quero dormir. Eu luto contra
as horas em que eu deveria estar apagada. Eu
acordo cansada. Eu assisto ao céu. É um filme
que eu vejo todos os dias… Quando eu tenho
insônia, jogo areia pro alto. Cai no meu olho.
Eu adoro a praia a noite. Eu não durmo. Mar
salgado. Mar gelado. Chuva na praia. Lava
a areia do mar. Eu sou a areia, o mar vem
…o mar vai. O mar vem de novo. Mar
turvo. Mar amor. Areia em mim. O
mar vai de novo. Mar amargo.
Nos meus olhos. Ardem. Eu não
durmo. Boca seca. Cabeça pesada.
Tem um buraco na areia da minha cabeça.
Passa água.Tem uma concha com o barulho do
mar. Me sinto na praia. É o vácuo. É o tempo
seco. Eu tenho sede. Eu sequei a areia da praia
e ninguém disse nada. Eu não durmo. O mar nunca
mais voltou. Eu não durmo. Eu não durmo. Tinha

sangue na areia da praia e ninguém fez nada.
Eu sequei a areia da praia e ninguém disse
nada. Recolhi toda a areia da praia e
ninguém viu nada. Nada.
Tem areia nos meus
olhos. Eu vou
refazer o mar.
Eu não durmo. Eu
não durmo. Eu não
durmo… Eu não
durmo.Eu não
durmo….

 

[01/08/2008 - texto escrito na madrugada....  são 08:44 da manhã, vou tentar dormir de novo]

Construi uma barreira de gelo
porque achei que gelo seria uma boa.
Frio, porém transparente.
Dava pra ver, mesmo que um pouco
embaçado, tudo o que tinha do lado de lá,
o que não era eu.
(ou talvez fosse)

Funcionou bem no dia do teste.
Cumpriu sua função de proteger,
apesar de me deixar meio fria…
Mas no outro dia,
o dia mais seco do ano
(talvez de muitos anos),
foi diferente.
Não sei se tava muito quente,
porque até meu rosto ficou um pouco vermelho…
mas é que derreteu no topo.
(quase…
quase deixei escorrer!)
Foi ruim.
Os átomos na água ficam mais dispersos,
bagunçados…
fiquei com medo que evaporasse?
Achei que fosse o tempo seco.

Eu construi uma barreira de gelo,
mas o meu tempo sempre é verão.
Todo o dia eu recomeço
Todo o dia eu recomeço
Todo o dia eu recomeço
(E se eu quisesse terminar rimando
eu diria que é em vão)

 

[Texto escrito hoje, enquanto eu sentia frio e a sensação boa de estar vulnerável no vão do masp, perto daqueles libertinos-que-tocam-muita-música-boa e em baixo daquele bloco de concreto]

É isso, e são 23h23min. E talvez eu goste da adrenalina de achar que um bloco de concreto pode cair na minha cabeça. A qualquer momento.

 

—Uma mensagem para meu parceiro: Eu troquei o layout de novo, porque aquele tinha um problema. Não aparecia quem postou o quê. E isso é um problema para um blog de duas pessoas…. (desculpa minha incompetência em não conseguir mudar, hahaha) Faça isso você, que entende dessas coisas. Brigada. É isso. —

Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim

 

Pati foi lá e vendeu todos os sonhos. E como ela ainda não sabia o quanto eles valiam, ela vendeu cada ovelha por 40 reais, o infinito por oito reais, todos os morangos que ela colheu por 100 reais, o céu por cinco reais (porque era inverno e tinham poucas núvens), a caixinha azul (com a chave correspondente) por quatro reais, e toda a coleção de idéias criativas por mais 50 reais. No fim, ela cobrou 287 reais por tudo e o cara que usava o uniforme do mundo pagou com três notas de cem, além de uma dose de apatia que seria o suficiente para ela sobreviver, e disse que ela podia ficar com o troco se ela levasse um chiclete pra ele todos os dias. Ela achou aquilo bem digno, e ia ser aquilo todo o mês pelo resto do tempo que ela não sabia o quanto ia durar.
Pati passou a vestir o uniforme do mundo todos os dias, porque é regra. E, por causa da dose de apatia, ela não sentia falta dos sonhos e nem sentia falta de nada. É assim quando se é apático, você não sente falta nem de sentir falta, e isso é o que te conforta quando você não tem tempo de se emocionar com a vida.
“You try, but life is a game.”
E demorou um tempo até que Pati percebesse o que tinha acontecido com ela. Foi num dia de sol e céu-de-brigadeiro, com um pôr-do-sol laranja que lembrava algo que ela não lembrava, e ela chegou em casa mais cedo, porque passara mal enquanto fazia o que tinha que fazer. É que todo mundo passa mal quando a vida fica estranha. E eu acho que a mudança na rotina foi o motivo pelo qual ela deve ter parado pra pensar. Ela viu seu sapato jogado na sala com a sola virada pra cima e correu pra desvirar (porque diziam que isso dá azar). Foi aí que ela viu que havia uma borboleta maravilhosamente-morta-esmagada na sola de seu sapato. As cores de suas asas se misturavam, formando um desenho bonito e brilhante, e aquilo foi demais para a sua recém-comprada apatia. Ela se comoveu, mesmo tentando se controlar pensando que era só uma borboleta que ela tinha matado. Ela tinha matado! Mas era uma morte linda, colorida e brilhante. E Pati era uma assassina sorridente. Sorrindo, porque ela não tinha escolha.
Pati voltou para falar com o cara que usava o uniforme do mundo, e disse a ele que não queria mais os trezentos reais por mês, e que queria seus sonhos de volta. Ele se recusou a devolver, alegando que ela tinha vendido e “quando você vende, já era!”. Foi então que ela mostrou a borboleta esmagada pra ele, e a ofereceu em troca de todos os sonhos vendidos. O cara do uniforme olhou para aquele monte de cores misturadas e brilhantes e acho que ele meio que se perdeu ali, porque ele aceitou devolver todos os sonhos da Pati por aquela criatura tão naturalmente-morta-colorida. Pati foi embora dali pra nunca mais voltar, deixando a apatia e o uniforme. Ela foi atrás da vida e encontrou um mundo, mas esse mundo era muito grande e ela se perdeu. Pelo menos ela nunca mais vendeu seus sonhos e um dia ela percebeu que, para se achar, ela TINHA que ter se perdido. Já o cara que usava o uniforme do mundo, ele nunca mais soltou a borboleta morta, e nunca mais vestiu aquilo. E um dia, ele mascou vinte chicletes de uma vez, fazendo uma bola tão grande (tão grande), que ele saiu voando pela janela e começou a fazer parte do céu que fazia parte dos sonhos da Pati. Assim, a borboleta morta arranjou um jeito de voltar a voar no céu. Todo dia Pati olhava para o céu, e sempre tinha a sensação de que tava tudo ali, mesmo que ela não encontrasse nada. Sem falar que todo dia tinha pôr-do-sol.

 

E era assim: o que quiser que tenha, tinha. Tinha arrebol? Tinha. Rouxinol? Tinha. Luar do sertão, palmeira imperial, girassol, tinha. Também tinha temporal, barranco, às vezes lamaçal, o diabo. Depois bananeira, até cachoeira, mutuca, boto, urubu, horizonte, pedra, pau, trigo, joio, cactus, raios, estrela cadente, incandescências. Enfim.

- Ôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôôô!!!!!!!!!!!

[hoje é dia vinteoito de julho de doismileoito, e são onze-eoito da noite]

Tchau 

A gift

July 28, 2008

Ursos que parecem ovelhas para luciendescai que parece lucy in the sky

Once upon a time

July 28, 2008

Espero que os meus posts sem personalidades sejam bem-vindos no meu blog recem dominado por forças nem tão estranhas e nem tão cruéis.

Sou péssimo para isso, mas se eu não começar se algum jeito vou acabar apagando umas 50x a primeira linha até desistir de postar, como eu fiz desde que criei esse blog…

Por sorte, mesmo que tal coisa não exista, conheci luciendescai, e ela me inspira a escrever…

Sempre imaginei a vida assim…

Alguns anos de tortura em uma instituição de ensino fundamental ao médio até o vestibular…

Passando no vestibular, no instante seguinte, me encontraria em um apartamento, com um carro, dinheiro e felicidade… ha-ha

Mesmo depois de aprender tanto sobre os mecanismos tortos desse planeta ainda, que incoscientemente, acreditava em tudo isso.. ha-ha

Mas essa ainda é a peça que falta no quebra-cabeça, nunca vou saber a verdade antes de abrir a porta e a chave, ainda que não seja mais dourada e brilhante como foi um dia, ainda é a chave (vestibular).

No entanto soube dar tempo ao tempo… e descobri muito mais sobre a vida, muito além do que a minha ambição material almejava, muito mais do que a minha alma artista sonhava…

Descobre-se amor, amigos, responsabilidade e a dor de perder tais coisas.

Nem mais uma palavra… já nem sei mais o que estou falando.

Boa noite e boa sorte.

Saudades de sentir saudades.

Kaio – lúcido apagado
 
Eu me distraio de mim mesmo
porque eu seria capaz de me destruir
Eu me distraio da minha vida
com outras vidas
pra não ver os destroços que ficaram
 
Eu me distraio com os destroços
como se fossem brinquedos
já que eu não consigo sair dalí
 
Eu não sei mais se sou
destrutivo ou destrutível
distraído ou distraidor
 
traidor
de mim mesmo
Eu me distrato
Eu me forço a dormir
quando meu corpo não aguenta mais sonhar
Eu me forço a comer
como os destroços, em pedaços
quando o que eu quero é vomitar
Eu me sinto vivo como nunca
como nunca antes eu desejei nunca ter nascido
 
Eu me distraio comigo mesmo
pra não me destruir
 
Eu sou um destruidor
detestável
distraidor
divagante
traidor
com muita esperança.
 

 

Um poema nauseante para homenagiar todas as vidas nauseantes do mundo.
E vivam em paz.
 
 
Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car. Buy a car to drive to work. Drive to work to pay for this car.
 

 

[26/07/2008 - de manhã ou algo assim] 

 

Eu editei esse post pra colocar essa música do radiohead, em homenagem a banda cover do readiohead que vai tocar hoje na funhouse.

FITTER HAPPIER

Fitter, happier, more productive,
comfortable,
not drinking too much,
regular exercise at the gym
(3 days a week),
getting on better with your associate employee contemporaries, at ease,
eating well
(no more microwave dinners and saturated fats),
a patient better driver,
a safer car
(baby smiling in back seat),
sleeping well
(no bad dreams),
no paranoia,
careful to all animals
(never washing spiders down the plughole),
keep in contact with old friends
(enjoy a drink now and then),
will frequently check credit at
(moral) bank (hole in the wall),
favors for favors,
fond but not in love,
charity standing orders,
on Sundays ring road supermarket
(no killing moths or putting boiling water on the ants),
car wash
(also on Sundays),
no longer afraid of the dark or midday shadows
nothing so ridiculously teenage and desperate,
nothing so childish – at a better pace,
slower and more calculated,
no chance of escape,
now self-employed,
concerned (but powerless),
an empowered and informed member of society
(pragmatism not idealism),
will not cry in public,
less chance of illness,
tires that grip in the wet
(shot of baby strapped in back seat),
a good memory,
still cries at a good film,
still kisses with saliva,
no longer empty and frantic
like a cat
tied to a stick,
that’s driven into
frozen winter shit
(the ability to laugh at weakness),
calm,
fitter,
healthier and more productive
a pig
in a cage
on antibiotics.

 

Eu tava sem inspiração, então eu escrevi essa história não muito inspirada.

 

Ela olhou pra ele e pensou por um momento num pensamento que ela já tinha pensado antes. E, num surto psicótico, ela atirou as cobertas para o lado e colocou um disco do Elvis na vitrola. Ela pulava no colchão jogado no meio da sala, dançando a música histérica que tocava enquanto passavam as letras do filme que eles já tinham assistido. Ele ria e tentava segurar suas pernas, mas ela realmente estava tendo um surto psicótico, e ela achava que dançando loucamente sem parar, e com os olhos fechados, ela poderia sair dalí para algum lugar distante, como Paris. Ele desistiu de tentar segurá-la e, enquanto ela continuava a pular desvairadamente, ele confabulava. “Eu sinto como se eu pudesse viajar no tempo com você, sabe…você me dá a sensação de não haver tempo nem espaço. Eu me sinto nos anos 60…em algum lugar que não é esse”. “Deve ser porque a gente TÁ nos anos 60″, ela caiu no colchão e ficou ali jogada, como se estivesse morta. “Eu acho que nós podemos chegar juntos no infinito…e aí a..”. Ela deu um berro de angústia que o fez parar de falar. “O que foi?”. “Eu acho que essa foi a coisa mais legal que já me disseram, mas… cala a boca, por favor! Nós não podemos chegar JUNTOS no infinito”, ela se sentou descabeladamente, e com a mão direita ela apertava o seu pulso esquerdo. “A gente pode sim…”, ele pegava na mão esquerda dela e afastava o cabelo de seu rosto, “eu acho que…eu amo você”. Ela puxou sua mão esquerda da mão dele num susto. “Não, não, por favor não”, ela dizia num tom de pré-choro-desesperado. “Você nem PODE me amar! Você nem me conhece!”, ela assustava o garoto. “Eu não preciso….olha, você não precisa surtar! Nem dizer nada! Eu só tô te dizendo o que eu sinto”. Ela foi se levantando, abriu as janelas e olhou para o céu. “Você não deve sentir isso. Desculpa, eu não queria….eu não posso pensar sobre isso agora, eu não consigo mais. Você nem devia estar aqui. Eu acho que eu não fui sincera o suficiente, eu não te contei tudo. Eu não posso. Eu não posso, eu não consigo! Tem uma coisa que me prende, e eu fico esperando. Esperando no infinito! É por isso que nós não podemos chegar lá juntos. Eu ainda me sinto presa a essa coisa, e me dá uma sensação ruim você aqui agora..”, ela dizia de costas para ele. “Então, eu acho que vou embora”. Ela não disse nada e não se virou, ela não ia suportar aquela cena de novo. Ela ouviu os passos de sempre, o mesmo barulho da porta se abrindo, mais passos, e o barulho insuportável da porta se fechando. Ela aumentou o som, porque ela não queria escutar ele indo embora. Não que ela estivesse triste por ele ir embora. Ela só estava cansada de gente indo embora. Ela chorava, enquanto o Elvis cantava “Love me tender”. Ela tinha azar na combinação de músicas com momentos. Foi então que ela decidiu, arrumou suas coisas e, sem deixar nenhum bilhete, ela se foi. Os mesmos passos, o mesmo barulho de porta se abrindo, mais passos…e agora era ELA que estava do outro lado da porta, e ela teve o prazer de ouvir o barulho insuportável da porta se fechando. Ela colocou os fones no ouvido, porque ela não queria escutar o som de mais alguém indo embora, mesmo que fosse ela. Ela saiu voando por aí, para o infinito e talvez até além, e ninguém nunca mais soube dela. Ela ficou conhecida como A-menina-que-foi-embora-depois-que-todo-mundo-já-tinha-ido. Anos se passaram e ninguém sabia o que havia acontecido. Porém todo mundo continuava dizendo “Ela não morreu”.  ∞

 

Essa foi a triste história das pessoas que precisam esperar morrer pra poder se libertar.

 

E vão em paz.

 

[25/07/2008 - 17:17h]

 

Metáforas e migalhas

July 23, 2008

” E até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei”
 
- Moço, você me deu troco a mais.
- Eu sei. Finge que não percebeu, menina, e vá embora.
- Mas eu percebi. Toma, eu não quero troco a mais.
- Você é bem boba, hein.
- Por que você tá fazendo isso?
- Porque você já pagou demais…
- Eu paguei o que eu comprei!
- Mas o que você comprou não vale o que você pagou. São só migalhas… Aliás, você sabe que não vale a pena, então por que você comprou?
- Porque eu precisava!
- Não, não precisava…
- Mas eu QUERIA!
- Mesmo sabendo do preço que você teria que pagar?
- Eu não sei se eu sabia… acho que eu tinha esperanças de que não ficasse tão caro. Mas, mesmo assim… mesmo depois de ver o preço, eu achei que tinha que pagar.
- Você não tinha, mas tudo bem. Essas coisas não têm explicação. Eu só acho que você não merecia… são só migalhas!!
- Eu sei que não mereço, mas o que eu posso fazer?! Agora se paga por peso! E, mesmo sendo só migalhas, elas pesam demais.
- Tudo bem, menina. Eu não vou insistir, assim como você não deveria insistir em pagar tão caro por migalhas. Chega de conversa, vá embora.
- Tá, mas toma o troco que você me deu a mais.
- Fica com ele.
- Você tem pena de mim, porque você acha que eu tô fazendo a coisa errada, não é?
- É. Todo mundo sabe.
- Não. Na verdade, ninguém sabe! Só EU sei porquê vale a pena pagar esse preço. Me deixa com minhas migalhas! E se eu vou comprar de novo ou se eu vou comprar SEMPRE, sou eu que decido!! Toma o seu troco a mais, porque eu não preciso disso! Eu sei o que tô fazendo…
- Mas qual o problema de aceitar uma ajudinha?
- Eu não quero ficar com nenhuma pendência.
- Então tá. Eu espero que isso passe.
- Vai passar. 

“Me diz o que é o sufoco, que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar”

 

[23/07/2008 - 22:47h] 

 

 

 

 

Me, I’m just a lucky kind.

Love to hear you say that love is love.

 

 

Ela tentou colocar um Band-Aid no desenho de coração partido que ela fez em seu caderno. O Band-Aid saiu do lugar enquanto ela transportava o caderno na bolsa e as páginas ficaram coladas uma na outra. Ela nem queria mais abrir aquela página, mas mesmo assim fez um esforço que foi demais para o caderno. As páginas rasgaram. As duas. Ela chorou, porque aquilo era o fim.

Então ela colocou o disco do Elvis, o rei. E ela ouviu numa música que o Elvis roubou do Bob Dylan, ou que o Bob Dylan roubou do Elvis (o que é menos provável), que “There ain’t no use to sit and wonder why, baby”, e ela chorou, porque aquilo era o fim. Ela chorou, porque o Elvis talvez estivesse morto e porque, em vida, ele roubava músicas do Bob Dylan. E ela lembrou de uma história que ela ouviu um dia, de um cara com muita credibilidade, que depois que o Elvis morreu ele supostamente entregou isqueiros Zippo para os soldados do Vietnã. E ela lembrava bem do dia em que ouviu essa história, sentada naquela pedra gelada de beira de psicina. Ela chorou, porque ela também sentia falta do cara com credibilidade.

Ela chorou, porque era a primeira vez que ela arrancava uma flor de algum lugar, e a flor era de plástico! E aquilo era o fim!! Mas ela percebeu que o destino dela era, definitivamente, nunca arrancar uma flor de seu lugar. (Mas como que ela não percebeu que a flor era de plástico?). Ela lembrou de quando uma vez ela ganhou flores, de um cara com uma boina que a esperava na porta do colégio. Ela pensou em como tinha sido ridículo o fato dela ter tentado fugir quando ela viu o cara com as flores. Ela até lembrou que ao invés de dizer ‘obrigada’ e sorrir, ela perguntou ‘O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI!?’

Ela percebeu que ela não tinha escrúpulos mesmo. Que talvez ela já tivesse detonado a vida de muita gente com colocações agresssivas. E que devia ser por isso que ela estava sentada naquela mesa para quatro pessoas completamente sozinha, e que quando grupos de três ou quatro pessoas chegavam e olhavam pra ela com cara de mau-humor, por ela estar ocupando SOZINHA o lugar de quatro pessoas mais confortável do recinto, ela só fingia que não via e continuava escondida atrás da montanha de guardanapos que ela tinha feito. Ela chorou, porque aquilo era o fim, e porque ela estava acabando com o meio-ambiente desperdiçando todos aqueles guardanapos.

Então ela pensou sobre a sua vida e percebeu que essa história era muito normal, porque todo mundo chora, todo mundo gosta do Elvis, mesmo que ele cante músicas do Bob Dylan, todo mundo confunde flores de plástico com flores de verdade às vezes (ela esperava), todo mundo faz colocações agressivas quando não deve, e todo mundo acaba com o meio-ambiente.

Daí ela olhou pro andar de baixo e tinha um garoto bonito lendo um jornal, tomando um café e aquele shot de águinha nojenta com gás. E ele tava do lado do vaso de flores de plástico. E ele tava ouvindo música, o que podia significar que havia alguma probabilidade dele estar escutando o Elvis cantando alguma música do Bob. E ela pensou: poxa, como a vida é comum.

Então um mini-disco-voador adentrou no recinto e abdusiu o garoto bonito com o jornal e o café (menos a águinha nojenta com gás). E o mini-disco-voador ficou pairando sobre a mesa dela por um momento, até que despejou o garoto bonito do outro lado de sua mesa. Ele ficou olhando pra ela, enquanto enrolava uma folha do jornal de maneira bem fina. Ela usou o poder de sua mente para produzir uma bola de fogo com as mãos e acendeu o cigarro de folha de jornal do garoto bonito. Mas ela tava de saco cheio de tudo aquilo e atirou a bola de fogo pra incendiar as pessoas que a olhavam com cara de mau-humor. Um cheiro de churrasco invadia as narinas dos dois. O menino tirou sua fenix de estimação da mochila e começou a alimentá-la com as cinzas do cigarro.

- Nossa, eu adoro fenix!

- Você também não acha que a vida é comum?

- Ah, o destino…

Os dois choravam de emoção, porque aquilo era o fim, e porque a vida era muito comum. E quando os dois estavam saindo juntos do recinto, de mãos dadas, o menino arrancou uma das flores do vaso de flores de plástico e romanticamente deu a ela. Ela sorriu e disse ‘obrigada’, e ele chorou, porque aquilo era o fim.

 

Someday when we’re dreaming,

Deep in love, not a lot to say…

Then we will remember

Things we said today.

às vezes eu páro pra ler o que eu escrevo e eu penso “caramba, que tosco.”

[22/07/2008 - 23:54. E já é quase amanhã...]

Memórias do subsolo

July 21, 2008

E eu que achei que tinha virado outra pessoa…

Agora eu achei este texto aqui, de 6 meses atrás… e percebi que eu ainda sou a mesma. Que droga de personalidade inflexível.

***********************************************************************

TRANSTORNO BIPOLAR

Pela cebola de vidro ela podia ver várias estrelas. Não era o seu céu. O seu céu não tinha estrelas. Ela tira a cebola de vidro da frente de seus olhos, só para confirmar. Lá estavam as várias estrelas, agora nítidas, nítidas como estrelas. Ela volta a ver através da cebola de vidro, como se o fato de haver tantas estrelas não fosse estranho. Ela não estranha mais nada. Ela nem acha mais que sua vida é real. Aquelas tantas vezes que ela olhava para o relógio no dia e os números estavam iguais foram suficientes para confirmar sua tese. Ela não entende os estranhos acontecimentos. Ela está perdendo todos os detalhes. Justo ela. Ela não tem mais controle sobre os acontecimentos. Eles simplesmente vão passando, e vão passando os detalhes, e quando ela vê…já perdeu todos. Ela não consegue focar e ela não tem certezas importantes. É importante ter certezas importantes, eu quero dizer…alguma certeza que não seja a de que todos os dias tem pôr-do-sol. Ela só olha para o céu agora. Ela deseja ser engolida por ele. Ou pelo menos suplica que ele a dê respostas. E até o céu já não é mais o mesmo. Ele tem estrelas agora. Estrelas! Em plena cidade de São Paulo. Em pleno ano de 2008. Ela só queria sentir os detalhes com maior intensidade. Talvez isso fizesse com que ela voltasse a achar estranho que houvesse estrelas no céu. Ela continua a olhar o céu pela cebola de vidro. Ela gosta do efeito distorcido que a cebola faz com as imagens. Ela enxerga tudo distorcido. Aquela cebola é só uma ilusão. Ela ficou tanto tempo fugindo da realidade, que agora que não pode mais, ela não sabe o que fazer. Ela só precisa de algumas certezas importantes. Ela nem se acha real. Agora ela passou a achar que sua personalidade, seu temperamento não a pertencem mais. Ela não sabe mais quem ela é. Ela não sabe o que pensar. Ela não faz mais nada. Ela só olha para o céu. Olha para o céu e pensa. Pensa em pensar em algo que faça sentido. Mas isso já não parece mais possível.
Às vezes eu penso que vou ficar louca, ou algo assim. Louca de tantos esclarecimentos sem certezas. Quanto mais o mundo parece claro, menos eu tenho certezas. Um dia, quando eu tiver entendido o mundo, eu não terei mais nenhuma certeza. Então eu vou sucumbir. Eu vou sucumbir a tanta clareza. Talvez seja por isso que as pessoas gostam de se alienar. Porque quando você não entende, você tem mais certezas. E certezas, pelo menos, trazem segurança. Eu não tenho segurança nenhuma, e nem quero ter. O problema é que isso torna tudo mais difícil. Eu nem acho mais estranho o fato de haver tantas estrelas no céu de São Paulo. Eu não posso mais fugir da realidade e isso está me sufocando. A realidade me sufoca de tal maneira que eu não consigo focar em nada. Até me dá nauseas ler um livro. Eu só queria fechar os olhos como todo mundo. Fechar os olhos para poder acordar. Mas eu não sei mais se isso tem volta. Eu já me sinto tão distante dessas coisas que eu não suportaria voltar para elas.
As nuvens fizeram o favor de tampar as estrelas. Ainda bem. Aquilo já começava a incomodá-la. Mesmo ela não achando mais estranho. Ela quer que tudo volte a ser fácil. Ela quer pensar mais com a razão. Ela sente que perdeu completamente a razão, porque ela só sente. Ela sente tudo. Ela sente tanto que ela não consegue mais sentir os detalhes, porque são muitas coisas para se sentir ao mesmo tempo. Deve ser esse o problema. Tanto sentimento é que deve ser sufocante.

Ela nem sabe mais o que a sufoca. Ela não sabe nada, diga-se de passagem. Ela só sente e sente tanto que sente que já não sente mais nada. Ou que não há nada para ser sentido.

Talvez nada seja real mesmo e eu estou aqui perdendo meu tempo com essas coisas sem sentido algum. Eu só queria voltar ao normal. Aquelas estrelas! São tantas e elas estão tão incrivelmente intensas que vê-se até através das nuvens!

 

Ela voltou a achar um fato estranho em ter tantas estrelas. Ela simplesmente não se importa mais.

Ela queria que toda essa viagem alucinante que ela tem sentido virasse um filme. Para que todos pudessem compartilhar dessa experiência. Mas ela pensa que isso geraria um caos total. Uma crise existencial em escala global que abalaria toda a sociedade.

Não. As pessoas não são mais assim. As pessoas sofrem a catarse, mas alguns minutos depois elas já se esqueceram. Elas têm sentimentos muito passageiros. Elas só querem viver a vida delas. Elas se encontram aqui, esse é o contexo, não há porquê mudar. Elas não vêem razão pra isso. E elas estão certas. Porque não há razão, de fato.

O que é transtorno bipolar?

[texto escrito em 09 de janeiro de 2008 - por volta da uma da manhã]

 

 

21/07/2008 – 23:23h

 

 

Eu quero ver de novo

Eu quero ver novo

verde vermelho

de verdade

Eu abro todas as janelas

pra poder ver melhor

o vento

o verde e o vermelho

de novo

Eu penso bem antes de abrir cada uma

Ou vice-versa

Eu nem penso

de verdade

O vento, que é tipo um sentimento

às vezes fecha as janelas

Mas eu abro de novo

Eu não canso de ver

Ver novo

Ver de novo

Eu só canso de abrir janelas

Verde vermelho

Vice-versa

Eu quero ver verdade

Verde verdade

mesmo que seja de novo

 

 

[21/07/2008 - 10:45a.m]

 

“-Você parece o Céu cinco minutos antes da tempestade…

- Você também.”

 

“Você perde o medo que é parecido com o que sentem os animais escondidos atrás de sofás ou debaixo de escadas. Você tem coragem e escala muros, diz adeus, bate a porta e o som surdo não incomoda. Você atravessa as ruas, não olha para os lados, caminha pelas bordas, não olha para baixo. Você segue até o fim, vira às esquerdas, paga o quanto eles querem. E é assim que acontece a partir de agora.”

Sugiro que não leiam isso, pois é só um desabafo de insônia.

 

Se você não desistiu ainda, por favor…desista agora! sério. Não leia isso, não é nada. (hahaha, isso é um aviso tão estúpido. Ninguém entra aqui, menina!)

Agora que eu tenho insônia (eu nunca tinha sofrido de insônia. às vezes eu não conseguia dormir e achava que era insônia, mas só agora eu sei o que é insônia de verdade), quer dizer… não SÓ porquê eu tenho insônia, mas sim por vários motivos, um deles é a minha insônia. (insônia é uma palavra muito feia, é tão ruim ter que lê-la tantas vezes, desculpem-me) Mas enfim…agora que eu tenho esse ‘probleminha’, e que eu quase não tenho ninguém pra conversar, eu fico escrevendo aqui. Eu moro aqui agora, sabiam? Isso aqui fica quase o dia todo aberto, pra qualquer escrita de emergência. E tem meu caderno preto também. Eu tenho um novo caderno, pra escritas de emergência FORA DE CASA. É que às vezes não tem ninguém ao redor, e eu preciso falaaaar, entende? Então, meu caderno tem a capa preta e as folhas coloridas. Eu me sinto tão diferente. Eu até cortei meu próprio cabelo hoje. Tenho que admitir, eu quase fudi com tudo. Mas cabelo cresce… e eu fico ouvindo música, pra casa não ficar muito silenciosa. Às vezes eu até ligo a tv, só pra fazer som. Eu saio de casa e converso com pessoas desconhecidas. E por isso eu tenho tomado muito café, deve ser um dos motivos da minha insônia. Porque eu não posso simplesmente sentar nos cafés sem pedir nada. Eu não gosto de férias, todos os dias parecem domingo, e eu sempre detestei domingo. No domingo de sábado eu fui assistir a uma peça incrível! Aliás eu tenho assistido a muitas peças. E filmes. O cara da locadora fica insistindo pra eu fazer o plano de tíquetis, porque eu apareço lá TODOS OS DIAS. Eu me sinto confortável aqui. Apesar dos tons-pasteis dessa página. É que tem outra pessoa que mora aqui, e na verdade a casa é dela, eu não posso ficar mudando as coisas. Se bem que ela nem lembra que isso existe, se vocês perceberam…só eu escrevo aqui. Um dia eu vou mudar, é que me dá preguiça. E eu até que estou convivendo bem com minha nova insônia, minha nova necessidade de ESCREVER TODA A PORCARIA QUE VEM NA MINHA CABEÇA, meus novos cafés de todos os dias, minhas novas roupas esquisitas, meu novo cabelo que eu mesma cortei e quase fudi com tudo… eu até mudei a posição dos móveis no meu quarto! Eu não tava suportando todas as lembranças de todos os cantos do meu quarto. Eu TIVE que mudar. Todas as partes do meu quarto me obrigaram a mudar. Também tem as novas músicas que eu escuto, os novos livros que eu leio… é tudo novo, tudo esquisito. Parece, às vezes, que meu corpo fica rejeitando essas coisas, porque eu passo mal, me dá nervoso, angústia, eu fico procurando coisas que eu não sei o que são. Eu fico abrindo minhas caixas de lembranças e procurando vestígios de quem eu fui, porque é como se eu não me lembrasse mais. Faz tanto tempo. Eu fico olhando minha cara no espelho e percebendo as seqüelas que ficaram na minha pele, no meu corpo. Minhas roupas ficaram largas, eu tive que comprar tudo novo e menor (e olha que eu já sou BEM pequena).  Eu fico tentando abstrair aquele perfume que parece que ficou em tudo. Eu achei que eu não fosse aguentar, e eu me perdi tentando ficar forte. Agora eu fico fraca tentando me encontrar de novo.

Porém, quando eu fecho só um olho, eu ainda vejo o mundo diferente do que eu vejo com o outro olho. Eu fico na frente do espelho fechando um olho, e depois o outro. E parecem duas pessoas diferentes, sendo a mesma pessoa. Os dois olhos juntos enganam muito a gente. Aliás, todos os meus sentidos me enganaram. E agora eles ficam toda a hora me lembrando disso. 

Se você leu isso aqui… me desculpa, eu avisei. De consolo, uma musiquinha legal:

“Tô vendo de baixo pra poder subir.
tô vendo de cima pra poder cair.
tô divido pra poder sobrar.
desperdiçando pra poder faltar.
devagarinho pra poder caber,
bem de leve pra não perdoar.
tô estudando pra saber ignorar,
eu tô aqui comendo para vomitar.

Eu tô te explicando pra te confundir,
Eu tô te confundindo pra te esclarecer,
Tô iluminado pra poder cegar,
Tô ficando cego pra poder guiar.

Suavemente pra poder rasgar
com o olho fechado pra te ver melhor
com alegria pra poder chorar
desesperado pra ter paciência
carinhoso pra poder ferir
lentamente pra não atrasar
atrás da vida pra poder morrer
eu tô me despedindo pra poder voltar” 

 

 
 

21/07/2008 – meia-noite e qualquer coisa.

 

Caramba! Amanhã é domingo-segunda!

Dá licença. Eu vou voltar pra minha insônia. Eu tô ansiosa pra saber o que vai ser do meu cabelo amanhã! E amanhã eu vou colocar alguma coisa que preste aqui. Juro. Eu juro pela sua vida!

“And for a minute there, I lost myself”

I live
I love
I leave
 
Arthur passava a mão direita pelos fios de cabelo oleosos, e com a mão esquerda na cintura ele procurava a melhor posição de seu corpo para pensar, se é que existia uma. Ele olhava para aquelas portas, aquelas TRÊS portas, e tentava formar uma idéia clara na sua cabeça do que estava acontecendo. Seus pensamentos confusos o levavam para longe, mesmo com o esforço que ele fazia para estar ali naquele palco. “Azul, amarelo, vermelho…são cores primárias. Essas portas poderiam ser de cores secundárias, por que não?” O barulho abafado que a platéia fazia começava a ficar cada vez mais alto e nítido, e de repente ele se deparou com o apresentador em trajes coloridos e um chapéuzinho ridículo, parado na sua frente com o microfone na mão e um sorisso falso. “ARTHUR! Arthur, querido! Vamos lá, diga para o Brasil: O QUE VOCÊ QUER GANHAR ESSA NOITE?!”. Arthur permanecia em silêncio estático, olhando para o apresentador com os olhos grandes e assustados, ele continuava com a mão esquerda na cintura e uma gota de suor escorria de seu rosto. “Cadê a Marcia, hein?”, ele se perguntava em desespero. Já era estranhamente difícil para ele tomar qualquer decisão sem a Marcia. “ARTHUR!! Você está vendo na sua frente AGORA essas três portas, e você já sabe o que pode ter atrás de cada uma delas. Você pode abrir a porta com o monstro, ou a porta com uma bicicleta, OU VOCÊ PODE GANHAR UM CARRO E UMA TV DE PLASMA DE 50 POLEGADAS!!!!!!! Agora diga para o Brasil, ARTHUR, o que você que ganhar?!”. O apresentador dava tapinhas em seu ombro. “Hãnn…eu quero a bicicleta, eu acho.” Arthur procurava o celular em seu bolso. “AAH, É CLARO. Quem é que não quer ganhar um carro zerinho e uma TV DE PLASMA DE 50 POLEGADAS!? Você fez a escolha certa, amigo, agora… QUE PORTA VOCÊ VAI ESCOLHER: azul, vermelha ou amarela?!” O apresentador já se aproximava das portas, o que deixava Arthur bem desesperado. Era tão difícil escolher uma porta. Ainda mais ABRIR uma porta. “Alô? Marcia?! Marcia, cadê você?!”. “Oi Arthur…ah, então…”, ela sempre começava com esse ‘ah, então’, “eu não vou mais, eu resolvi ficar aqui na casa da Ju pra jantar…”. Arthur, na verdade, já estava esperando por isso. “E você nem ia ligar pra me avisar!? Marcia…vermelho, azul ou amarelo?”. “Azul! E vê se ganha esse carro!”. Ela sempre fazia isso. “Azul! Eu quero a porta azul…”. Uma música sinistra de suspense começou a tocar, e o apresentador começou a se aproximar mais das portas, dizendo umas coisas que Arthur não conseguia mais ouvir. Arthur agora passava as duas mãos pelo cabelo oleoso, a esquerda e a direita, e pretendia permanecer com elas lá até que a porta fosse aberta. Era ridícula a posição dele no palco. A porta vermelha foi aberta. Ele sabia que o apresentador ia abrir a porta com o monstro e depois ia perguntar se ele queria trocar de porta, e ele tinha ouvido em algum lugar que se trocasse de porta talvez tivesse mais chances, mas não conseguia lembrar disso agora. Ele ficou esperando o monstro sair, enquanto o apresentador gritava “corre, corre, CORRE, O MONTRO!”. Mas Arthur ficou parado, porque não tinha nenhum monstro. Um vaporzinho saía da porta, e um cheiro de mofo invadia o palco. Ele se aproximou da porta vermelha, aberta, e espiou lá dentro. Era escuro e havia um poço, e quando ele olhou para o fundo do poço ele viu um monte de tristeza e desespero. Ele voltou ao palco meio perturbado,e ouvia o apresentador dizer “você já se livrou da porta com o monstro, agora, ARTHUR!”, ele sempre gritava o nome dele, “você quer trocar de porta, ou quer ficar com a azul?!”. Arthur não conseguia pensar, ele não conseguia dedicir, mas ele sabia que aquele era o momento que ele teria que optar por alguma das portas, ele teria que abrir alguma das portas e seguir em frente com a sua vida. Ele ficou pensando o quanto ele queria a bicicleta, mas Marcia o mataria. “Eu quero trocar pela amarela”, ele se lembrou da dica. O apresentador foi se aproximando da porta azul, e Arthur voltou as mãos na cabeça e limpou o suor de sua testa. Música de suspense. A porta azul é aberta. Imediatamente uma luz enche o palco de uma maneira que faz Arthur cair para trás, quase ficando cego. O apresentador está dizendo alguma coisa e a platéia está eufórica, mas ele não consegue entender mais nada. Ele se levanta e tudo vai voltando ao normal, ele enxerga o apresentador perto da porta iluminada. “Essa era a porta com a bicicleta! Isso significa que você ganhou O CARRO E A TV DE PLASMA, ARTHUUUUUUR! Porque você escolheu a porta AMARELA!”. Arthur quis chorar nessa hora. Ele foi até a porta azul iluminada, e lá dentro ele não via a bicicleta. Na verdade ele não sabia direito o que ele via. Parecia o infinito. E ele sentiu uma sensação ótima perto daquela porta. Tinha música, e tinha imagens…as imagens mais bonitas, e tinha….tinha liberdade lá dentro. Mas tinha medo também. Ele começou a ficar confuso diante daquela porta. O apresentador o pegou pelo ombro e apontava o microfone para a sua cara, “O que você faz da vida, ARTHUR?!”. “Hãn… eu sou administrador, mas eu sempre qu…”. “Aaah, ÓTIMO! Esse carro e essa tv combinam com você, ARTHUR!!! Vai lá…vai ver o que você ganhou, ARTHUUUUUUUUUR!!”. Ele abriu a porta amarela, que não era muito amarela, na verdade. Quando ele chegou perto ele percebeu que era meio bege. Lá ele viu: uma casa legal, com psicina, churrasqueira, o carro zero, a tv de plasma de 50 polegadas, um cão labrador, o céu bonito, a grama verde, umas bóias coloridas, e a Marcia…a Marcia tomando sol na cadeira perto da psicina. Era tão seguro ali, ele se sentia tão bem. A mulher que ele amava, e todas aquelas coisas. Mas, de repente, uma sensação muito estranha percorreu todo o seu corpo e parecia que ele realmente sabia o que fazer naquela hora.
Ele pegou Marcia pelo braço e a puxou para o palco, de biquini e óleo bronzeador. Ela ficou envergonhada e gritando quando viu toda aquela platéia e tentou se esconder atrás do marido.

“O que você tá fazendo, Arthur?! Onde a gente tá?!”. O apresentador tentava entreguar-lhe as chaves do carro efusivamente, seguindo-o pelo palco, mas Arthur não dava mais atenção a ele. Arthur pegou o celular, as chaves do carro da mão do apresentador e atirou no poço escuro dentro da porta vermelha. Marcia deu um berro de angústia. “O que você tá fazendo, seu louco?! Aaah, me larga!”. Arthur não pensava em largá-la. Não pensava em largá-la nunca! Ele sabia pra onde queria ir, e sabia que queria Marcia ao seu lado. Ele foi puxando-a, quase arrastando-a, para a porta azul. Ela gritava e se debatia e ele a atirou lá dentro. Ela sumiu numa coisa que parecia um redemoinho no ar, e ele se atirou atrás dela. A porta azul se fechou. A porta vermelha se fechou. A porta amarela se fechou. E todas as portas foram retiradas do palco no intervalo comercial.

 

20/07/2008 – 13:13h

Um dia alguém vai achar isso aqui. 

 

 

 

 

 

 

Alguma coisa que eu estava pensando e resolvi escrever em 12 de Dezembro de 2007
 
Vento

Vento na escada

Vento na escada da Gazeta

É muito vento

É frio

O vento me faz lembrar que há coisas que existem e a gente não vê, só sente. Será que o vento é tipo um sentimento? Eu não devo escrever “tipo”, mas ele se encaixa bem na frase. Eu penso em pessoas ao mesmo tempo que penso no vento, logo o vento poderia trazer pessoas. Eu preciso de pessoas. Algumas pessoas. As pessoas certas. Não é legal ficar sozinha, no frio, no vento, esperando. Esperando o quê? Que o vento traga algo além de frio. Repare que eu disse “além de”, o que significa que eu ainda quero o frio. E eu quero, de fato. O frio é bom nesse momento. Pausa para olhar ao redor e sentir frio.

Tem muita gente nessa cidade, mas todo mundo anda sozinho. As pessoas devem pensar bastante, tanto quanto eu. Elas só não devem reparar nisso. É importante perceber que se está pensando.

O sinal… mais um sinal e nada das pessoas…eu já estou ficando cansada, e com frio, e com medo. E medo não é legal. Vento é. Vento é tipo um ar correndo. De novo, eu não devo usar “tipo”. Será que ar tem pressa?

Eu tive que sair da escada, porque o vento começou a machucar. Vento que machuca não é bom, a não ser que ele vá trazer alguém, aí a gente sempre aguenta um pouquinho. E se você não tem certeza se ele vai trazer alguém, dói mais ainda. Então eu saí, e eu continuo aflita, porque a gente nunca tem o tempo que precisa. O tempo vai passando e a gente continua no vento.

Quando a gente espera tanto uma pessoa, a gente fica achando que todas as outras são estúpidas. O vento poderia levar todas elas e ponto final.

 

Outros pensamentos na mesma folha:

“Eu quero escrever tudo o que eu penso nessa folha, mas alguma hora ela vai acabar e eu não vou querer mudar de folha.”

“Tem um vento horrível…o mundo deve acabar, enfim. O mundo deve acabar em fim.”

“12:12″

“Eu não gostava tanto do Nogueira. Hoje eu gosto mais, porque também há vida dentro dele. Eu acho.”

“Eu queria um edredon agora.”

“Não consigo parar de pensar em plena quarta-feira!!!”

“Porque não. Por que eles não saem daqui? Vão embora! Se eu tivesse uma arma agora…eu a usaria.”

“Isso também vai passar?”

“Eu não me importo mais.”

“12:21″

“You said you’d come, but you just don’t care! Run with the wind.”

“Eu gosto tanto de você, como se você me ouvisse…”

“Nunca tentei pentear o cabelo bêbada.”

“Coitada dessa pessoa que faz propaganda do Objetivo.”

“FRIO!”

“Eu quero ir embora daqui.”

“E se eu quiser dizer…não queira me ouvir.”

“Capuccino kopenhagen”

“Eu quero voltar para o Canadá.”

“Torta brownie Havanna.”

“Eu não me lembro como se faz para relaxar nessas horas.”

“Pássaro do ovo, ovo do ninho, ninho da folha, folha do galho, galho do broto, broto da árvore da montanha o-le-i-a-ô.”

“Escrever não está ajudando.”

“Não tenho mais espaço!!”

 

 

“I got soul, but I’m not a soldier
I got soul, but I’m not a soldier
(Time cure hearts)”

 

 

Ela não sabe mais se não dorme porque fica pensando ou se fica pensando porque não dorme. Aquela imagem, daquela garota no espelho da loja, fica fixa na sua cabeça, assim como a garota na loja fica fixa diante do espelho. Dentro daquele par de botas, que ela viu de longe numa vitrine que ela-mesma jamais ousaria chegar perto, ela fica parada e pensando se aquilo complementaria o batom rosa-choque e a mini-saia-em-pleno-inverno que ela -mesma nunca usaria. Ela começa a andar pela loja desesperadamente e, enquanto a vendedora tenta manter a distância de um metro perseguindo-a pela loja e dizendo coisas que ela não está escutando, ela chega a conclusão de que poderia fugir de qualquer coisa, inclusive de ela-mesma, com aquele par de botas. Assim, ela fica vagando por aí (com o batom rosa-choque, a mini-saia-em-pleno-inverno e o par de botas) só pra checar se ela consegue realmente fugir de tudo o que ela quer deixar pra trás. Ela tenta novos hábitos, novos lugares, novas pessoas. E ela começa a achar que aquilo tudo realmente funciona, já que, desde que ela rejeitou seus quatro pares de All-Star, a calça jeans e a cara limpa, as novas pessoas que se aproximam dela são MUITO diferentes. Ela-mesma adorava os amigos nerds, intelectuais, artistas, revolucionários, mas as pessoas novas…ah, as pessoas novas ela não PRECISA gostar, porque as pessoas novas não se importam nenhum pouco com isso. “HA-HA-HA Que bobagem, querida!…Me passa o isqueiro, vai.” É só jogar conversa fora, tem coisa mais fácil? Nada de profundidade psicológica, análises divagantes ou algum tempo para questionar. Era só o isso o que ela precisava. Conversa-fora com gente que cheira bem (bem forte), um cigarro quando o assunto incomoda, e retocar o batom rosa-choque de vez em quando. Então, ela passa a maior parte do tempo assim, com esse par de botas. E quando ela o tira, a dor nas pernas é tanta que ela ainda se sente com ele. O que é bom, já que ela não quer lembrar de quem ela é sem aquele par de botas. Sem falar que… o que é uma dorzinha física pra uma Diva, não é mesmo?
O fato é que um dia ela tem que resolver o problema que era de ela-mesma, porque ela precisa disso pra seguir em frente com a nova vida. E quando ela chega lá, com a mini-saia-em-pleno-inverno-batom-rosa-choque-par-de-botas+cabelo-hidratado, e ela está determinada a agir de acordo com a sua nova vida, ela leva um susto. Diante daquilo que era parte de ela-mesma, quase metade de ela-mesma, ela não consegue ser NADA além de ela-mesma. Ela começa a misturar o que ela-mesma pensa e sente com o que a nova ela tinha planejado dizer. Ela não pensa em fugir da situação, mas fica tentando fugir de ela-mesma, e, quando percebe ser impossível naquele momento, ela deixa fluir e toma outro susto. Ela-mesma consegue resolver a situação, e de uma forma muito melhor do que o imaginável. Ela vai embora se sentindo estranhamente melhor. Tem um vazio. É como as novas meias-finas que ela usa, elas começam a arranhar e desfiar e, um dia, tem um buraco. E ninguém costura meias-finas. Aquele buraco vai ficar ali pra sempre. Vazio. Ou joga-se fora, ou usa-se assim mesmo.
Ela resolve que, mesmo assim, é melhor continuar com a sua nova vida e não tentar recuperar a velha. Jogar fora com o buraco. Comprar uma nova. Assim, ela passa o dia como havia passado os outros dias da sua vida nova. Ela deita na cama pra dormir e fica revirando de um lado para o outro. Os calmantes, que ela-mesma era contra tomar, parecem não funcionar nessa noite. Deviam ser os litros de café, que ela-mesma não estava acostumada a ingerir, ou os cigarros, que ela-mesma não fumava. Então vem a imagem da menina fixa em frente ao espelho da loja e, de repente, uma estrela cadente. Uma estrela cadente? EM SÃO PAULO!?!? Ela começa a pensar que, pra ter visto uma estrela cadente EM SÃO PAULO, ela estaria olhando o céu fixamente há, pelo menos, mais de meia-hora!
Desse jeito, ela teve que se convencer de que nunca conseguiria ser outra pessoa que não fosse ela-mesma. Não adiantava par de botas de merda nenhuma. Batom de merda de cor-choque nenhuma. E nem mini-saia EM PLENO INVERNO. Ela pensou que ela-mesma era um bom nome. Imagina…Elamesma. A filha, que ela-mesma tem pavor de pensar em ter, poderia receber esse nome. Ela percebeu que ela-mesma nunca ia poder sumir pra sempre. Porque ela-mesma não deixa ninguém, nem ela mesma. Então ela percebeu que teria que aprender a amar a ela-mesma de novo. Mas isso era, na verdade, muito fácil. Porque de uma coisa ela sabia: ela-mesma nunca deixa de amar.

E vai a meia-fina com buraco, assim mesmo. Afinal, se tem um vazio, é porque antes tinha alguma coisa. E o bom é pensar que você sente falta do que tinha ali. Uma meia-fina com buraco é só uma meia-fina com buraco. Ela vai ficando velha, e esticando…às vezes ela não aguenta mesmo, mas ela continua a ser uma meia-fina.

Essa foi a última coisa que ela pensou antes de virar para o lado, abraçar o edredon multi-colorido, olhar para céu uma última vez, e se perguntar…o que ia restar disso tudo amanhã de manhã?

 

02:02 a.m.
18/07/2008

 

“This is fact, not fiction. For the first time in years.”

Eu vim aqui, e vomitei tudo isso. Ninguém lê essa porcaria mesmo…

 

“É que por enquanto a metarmofose de mim em mim mesma não faz sentido. É uma metamorfose em que eu perco tudo o que tinha, e o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com seus planetas e baratas.” (Clarice Lispector)

 

 

Oito minutos, oito segundos e sete clicks + o pertubador fim de Olavinho

Ele abre os olhos e se depara com sua cara no espelho, assustada, de uma confusão embriagadora, que deixa a cabeça vazia, branca. Percebe o banheiro, joga água na cara, se sacode, desperta, duvida.

Coloca o cachecol, escova os dentes, carrega a pistola, pega uma laranja…abre a porta para a rua, mecanicamente, como se fizesse aquilo todos os dias.

Cachorro morto.

Fecha os olhos, aperta-os por sete segundos, abre. Cachorro ensanguentado?

Estranho.

Volta para a casa. Fecha a porta, tira o cachecol, descasca a laranja, carrega a pistola, sai com os olhos fechados. Inspira profundamente e sente o cheiro podre do sangue seco e da decomposição. Sem abrir os olhos, entra em casa. Lava o cachecol, come a laranja, carrega a pistola, pega um chiclete e sai, decidido.

Cachorro morto. Ele não entende. Pára, pensa, olha ao redor. Agacha. Amarra o sapato, pega um graveto e cutuca o cachorro, inutilmente.

Dá um salto, coloca as mãos na cabeça. Grita, chora, gira no sentido anti-horário.

Entra em casa, pega o cachecol – molhado- as cascas da laranja, e a pistola carregada.

Sai de casa. Ele nunca fez isso tantas vezes.

 

Cachorro morto, duro, gelado, roxo, ensanguentado. Ele suspira, dá um berro, chuta o cachorro para uma posição mais estratégica. Sobe no telhado. Coloca o cachecol – pingando, calculadamente na beirada das telhas, com a metade da metade gentilmente balançando, solta no ar. Cospe o chiclete, enfia as cascas de laranja na boca e, lá do alto, dá quatro tiros no cachorro morto, um no vizinho e um na própria cabeça.

 

 

 Um texto estranho, cujo autor é só alguém que já passou. Desculpem-me pelas coisas que se passam na minha cabeça.

 

“We all know Ob-La-Di Ob-La-Da

But can you show me, where you are?”

 

[09/06/08 - 04:04pm]

 ∞